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ZUMBI
Aqualtune
teve filhos que se tornaram chefes de mocambos, Ganga Zumba e
Gana Zona, e teve também filhas, e uma delas deu-lhe um neto
nascido quando Palmares esperava um ataque holandês. Os negros
cantaram e dançaram muito, pedindo aos deuses que o menino
crescesse bravo e forte. E, para sensibilizar o deus da
guerra, deram ao menino o nome de Zumbi.
Ainda bebê, Zumbi sobreviveu a um massacre, e um comandante o
leva para Porto Calvo, deixando-o sob os cuidados do padre
Melo. O padre acabou se tornando pai e mãe do bebê. Comprou
uma escrava de seios fartos para amamentá-lo, batizou-lhe
Francisco, porque "era manso e inteligente como o santo que
conversava com os animais". Ensinou matemática, histórias da
bíblia e latim a Francisco, que chegou a coroinha.
Enquanto Palmares cresce e se
fortalece, também assim acontece com Zumbi, em Porto Calvo.
Porém, aos quinze anos resolve se emancipar e parte em busca
de seu destino, e este estaria mata adentro, muitas léguas
dali.
Em algumas versões da história de
Zumbi, ao chegar em Palmares, ele escolhe seu próprio nome.
Aos dezenove anos, era chefe de um
mocambo (ou aldeia).
Ativo e muito instruído para a
época, ganha a confiança de todos e é nomeado o comandante das
armas pelo seu tio Ganga Zumba, na ocasião o líder supremo de
Palmares.
Nas lutas travadas em 1674, entre os
negros, Zumbi surge como grande guerreiro, chefe valente,
disposto a tudo. Nesse combate, o jovem chefe leva dois tiros,
ficando coxo, mas continua a combater. Seu nome e sua coragem
começavam a virar lenda. Porém, alguns mocambos foram sendo
derrotados e muitos negros acabavam por se entregar.
Após Ganga Zumba ter aceito o acordo
proposto pelo governador de Pernambuco Pedro de Almeida que
dizia que os negros e índios nascidos em Palmares se tornariam
livres e os que fossem fugidos deveriam voltar a seus donos,
ele volta feliz à Palmares, mas Zumbi não concorda. Para ele,
não se trata somente de viver livre, mas de libertar os ainda
escravos.
É a prudência e a sabedoria de Ganga
Zumba contra a ousadia e o entusiasmo de Zumbi.
Ganga Zumba é morto por
envenenamento e a suspeita caiu sobre o próprio Zumbi, que
ocupa o lugar do rei. Até mesmo os portugueses reconheciam :
"Negro de singular valor, grande ânimo e constância rara".
Sua valentia era lendária dentro da
cruel realidade de guerra, uma guerra onde os negros não
conseguem mais armas ou pólvora, a não ser a que tomam do
inimigo.
O rei de Portugal ainda mandou
oferecer as pazes a Zumbi duas vezes. Editais são espalhados
por todas as vilas e vizinhanças. Poderia morar aonde
quisesse, era só parar de lutar contra a escravidão: tem que
ter escravo; sem escravo não tem açúcar, sem açúcar não tem
Brasil, sem Brasil não tem Portugal. Mas Zumbi pensava
diferente: não precisa ter escravo; pode ter açúcar sem
escravo, pode ter Brasil sem açúcar. E Portugal que se vire.
Não havendo acordo, as lutas se
acirraram. Zumbi resiste nas matas mês após mês, ano após ano.
Em 1686, outro governador, nova tentativa. São vários grupos
com mais de mil homens e com munição suficiente para uma
guerra. São comandados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho,
que tomaria para si as terras de Palmares, caso conseguisse
derrotar Zumbi. Foi uma guerra dura e sangrenta.
Palmarinos haviam construído uma
muralha enorme para proteger o quilombo, e do lado de fora,
Zumbi mandou abrir um fosso, disfarçado com galhos e folhas.
Quem tentava ser aproximar, caía lá dentro. Os palmarinos e
suas mulheres, de cima das cercas, lançavam água fervente
sobre os atacantes.
De um lado para o outro, Zumbi
gritava aos seus homens, convidando-os a morrer em liberdade.
Ele é baleado e mesmo assim continua lutando. Sua abnegada
resistência levou a luta a se transformar em um massacre de
incríveis proporções. A corte não escolhe: homens, mulheres e
crianças vão ficando pelo chão.
Ao raiar do dia 7 de fevereiro de
1694, só há mortos e feridos. Os homens de Domingos Jorge
Velho começam, a procurar Zumbi, mas não encontram seu corpo.
Mais de um ano depois, um negro
prestes a ser executado troca sua vida pela informação do
paradeiro de Zumbi. E assim foi: o encontraram e renderam com
mais de vinte homens e no dia 20 de novembro de 1695, André
Furtado de Mendonça corta a cabeça daquele que foi o mais
destemido rei e guerreiro, neto da princesa Aqualtune: nascido
livre e morto por querer a liberdade de seu povo.
Um herói brasileiro. A notícia se
espalhou entre os milhares de escravos que não acreditaram:
Zumbi morto? Impossível! Um deus da guerra não pode morrer. E
do fundo das noites cantavam para dar força e vigor ao rei de
Palmares: "Zumbi, Zumbi, oia Zumbi..."
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