Waris Dirie , modelo somali,
nasceu em 1965, no deserto de Somalia , filha de uma família
nômade. Aos 5 anos de idade sofreu a mutilação genital
feminina. Motivo pelo qual converteu-se numa defensora da luta
pela erradicação dessa prática
Waris Dirie fugiu da Somália, a
sua terra natal depois , aos 13 anos de idade após ser
obrigada por seu pai a se casar com um homem de 60 anos. A
hoje embaixadora da ONU atravessou praticamente a pé um dos
desertos somalicos até chegar a capital de seu país Mogadisco,
onde inicia a luta em busca de seu sonho de ser "livre" e de
torna-se modelo.
Em sua fuga, primeiro foi
recolhida pela sua irmã mais velha e pela sua prima em
Mogadiscio a capital da somalia. Mais tarde foi levada para
Londres pelo seu tio diplomata que foi destacado na capital
britânica.
Com 18 anos de idade , o seu tio
foi recolocado ao país, ela decide permanecer em Londres e
tentar fazer carreira de manequim, à semelhança da sua prima
Iman Bowie.
Enquanto fazia pequenos
trabalhos para viver, é descoberta por um fotógrafo e mais
tarde por Terence Donovan, o celebre fotógrafo Britânico. Daí
fez a capa do calendário Pirelli em 1987. O mesmo ano, entrou
no grande ecrã no papel de girl bond no filme: "Matar não é
brincar". Foi o início de uma carreira internacional.
Depois de uma entrevista na
revista feminina "Marie Claire" no início dos anos 90, onde
evoca a sua mutilação genital, foi contatada pela ONU para
tornar-se embaixadora de boa vontade contra as mutilações
genitais femininas, trabalhando para abolir a ablação.
Escreveu vários livros sobre suas vivências. Existe uma
fundação com seu nome.
Em Julho de 2007 foi
condecorada "Cavaleiro da Legião de Honra" de França pelo
presidente Nicolas Sarkozy devido ao seu combate humanitário.
Waris Dirie,musa do camarote Bar
Brahma
O Camarote Bar Brahma, comemorou sua
décima edição em grande estilo. O tema escolhido foi África 360
e, para homenagear o continente, os organizadores do Camarote
elegeram a ex-modelo somali Waris Dirie como madrinha, uma escolha
inusitada que agregou ao Carnaval um conceito social acompanhado
desta ilustre presença internacional.
Waris sofreu
mutilação genital feminina aos cinco anos de idade, e isso a
tornou uma das maiores defensoras do fim dessa prática. O Camarote
Bar Brahma resolveu contribuir com essa luta e a convidou para
que, juntos, promovam a divulgação e contribuam para a erradicação
de um dos grandes problemas que ocorre na África. Atualmente,
embaixadora da ONU, ela veio ao Brasil pela primeira vez a fim de
conhecer o Carnaval e atrair novos colaboradores para o combate à
circuncisão feminina na Somália.
Aos 13 anos, após
ser obrigada por seu pai a se casar com um homem de 60 anos, Waris
fugiu e foi em busca do sonho de se tornar modelo. A história
marcante foi publicada em alguns livros e deu origem à Fundação
Waris Dirie, criada com o fim de erradicar esse costume somali (Waris
Dirie Foundation-www.waris-dirie-foundation.com). O Camarote Bar
Brahma desenvolveu diferentes formas de fomentar essa ação social.
“Este ano, nossa madrinha, além de uma linda mulher, nos permitirá
mobilizar pessoas e empresas em prol de uma causa muito especial.
A Waris representa a incansável luta pelo fim dessa prática que
vitima fatalmente inúmeras garotas na Somália”, declara Cairê Aoas,
diretor do Camarote Bar Brahma.
MGF
Mutilação Genital Feminina
A Mutilação Genital Feminina (sigla
MGF), termo que descreve esse ato com maior exatidão, é
vulgarmente conhecida por excisão feminina ou Circuncisão
Feminina. É uma pratica realizada em varios países principalmente
da África, e da Ásia, que consiste na amputação do clitóris da
mulher de modo a que esta não possa sentir prazer durante o ato
sexual.
Embora acredita-se que
esta prática seja muçulmana, em nada está fundamentada
religiosamente, tendo em vista de que os hadices em que tentam
conectar a prática ao Islão são fracos, sendo assim, esta prática
não é adotada nos países onde a sharia é fortemente estudada.
Esta prática não
tem nada em comum com a Circuncisão Masculina. Segundo essa
tradição, pais bem intencionados providenciam a remoção das suas
filhas pré-adolescentes do clítoris, e até mesmo dos lábios
vaginais. Há uma outra forma de mutilação genital chamada de
infibulação, que consiste na costura dos lábios vaginais ou do
clítoris.
A circuncisão
feminina é um termo que se associa a um determinado número de
práticas incidentes sobre os genitais femininos e que têm uma
origem de ordem cultural e não de ordem medicinal. É uma prática
muito frequente em certas partes da África e é praticada também na
Península Arábica e em zonas da Ásia. A prática da circuncisão
feminina é rejeitada pela civilização ocidental. É considerada uma
forma inaceitável e ilegal da modificação do corpo infligida
àqueles que são demasiado novos ou inconscientes para tomar uma
escolha informada. É também chamada de mutilação genital feminina.
A circuncisão feminina elimina o prazer sexual da mulher. A sua
prática acarreta sérios riscos de saúde para a mulher, e é muito
dolorosa, por vezes de forma permanente. No primeiro mundo a
cicuncisão feminina é praticada por médicos, que trabalham com
anestesia. Ela foi mais aplicada no século 19, em especial até os
anos 1960 nos EUA e outros países, principalmente para podar
clitórises ou lábios grandes. Achava-se que os órgãos grandes e
muitas vezes saindo dos lábios maiores são muito feios e que tais
meninas teriam uma maior tendência para tornarem-se prostitutas.
Ofensa grave aos Direitos Humanos
A Mutilação Genital Feminina é um
costume sócio-cultural que causa danos físicos e psicológicos
irreversíveis, e ainda, é responsável por mortes de meninas. Pode
variar de brandamente dolorosa a horripilante, e pode envolver a
remoção com instrumentos de corte inapropriados (faca, caco de
vidro ou navalha) não esterilizados e raramente com anestesia.
Viola o direito de toda jovem de desenvolver-se psicosexualmente
de um modo saudável e normal. E, devido ao influxo de imigrantes
da África e do Médio Oriente na Austrália, no Canadá, nos EUA e na
Europa, esta mutilação de mulheres está se tornando uma questão de
Saúde Pública. Algo que não se deve desconsiderar são os custos do
tratamento contínuo das complicações físicas resultantes e os
danos psicológicos permanentes. Têm-se promulgado leis para
ilegalizar e criminalizar esse costume. Embora muitos códigos
penais não mencionem diretamente os termos Circuncisão Feminina ou
Mutilação Genital Feminina, é perfeitamente enquadrado como uma
forma de "abuso grave de criança e de lesão corporal qualificada".
Vários organismos internacionais, como a Organização Mundial da
Saúde (OMS), tem envidado esforços para desencorajar a prática da
mutilação genital feminina. A Convenção sobre os Direitos da
Criança, assinada em Setembro de 1990, considera-a um ato de
tortura e abuso sexual.
Problemática sócio-cultural
A Mutilação Genital Feminina é
considerado no mundo ocidental um dos grandes horrores do
continente africano. A sua prática está cercada de silêncios e é
vivida em segredo. Manifestar-se contra esse costume é difícil e,
às vezes, perigoso para mulheres ou homens que se opõem. Em muitos
casos, são acusados de ser contra as tradições ancestrais - dos
valores familiares, tribais, e mesmo de rejeitar seu próprio povo
e sua identidade cultural.
Milhões de
pessoas bem intencionadas são desinformadas o que as levam a crer
que a Mutilação Genital Feminina é benéfica. A educação e o
diálogo são a única maneira de realmente combater os conceitos
errados e a superstição. Para a cultura ocidental uma forma de
mudar esta mentalidade é educar as mulheres mais velhas que
perpetuam esse costume, bem como dos homens mostrando os danos
físicos e psicológicos. Normalmente, é o pai que paga para a
realização da "cirurgia", para que possa casar suas filhas com
homens que não aceitam mulheres incircuncisas. Outro motivo da
continuação desse ritual é que é uma importante fonte de
rendimento para os que a realizam. Mesmo quando médicos a realizam
em algumas clínicas, na tentativa de evitar que as meninas sofram
os riscos e traumas resultantes de ablações anti-higiénicas e sem
anestesia, todavia, ainda assim para o ocidente considera-se que
se trata de mutilação genital feminina.
Tradição baseada em conceitos
errados
Em muitas culturas desde os países
de Africa a Ásia, acreditam que a mutilação genital feminina está
certa, os pais, mas mais propriamente a mãe e a avó tem voto na
matéria, elas acreditam que se a jovem não for "cortada" nunca irá
arranjar um marido, isso é a pior coisa que pode acontecer a uma
jovem; tal jovem ter se sujeitado à MGF é uma condição prévia do
casamento. Se uma mulher não for mutilada pensa-se que ela não é
pura e encaram-nas como prostitutas e são excluídas da sua própria
sociedade. Algumas razões que são apontadas para a realização da
MGF: assegurar a castidade da mulher, assegurar a preservação da
virgindade até ao casamento, por razões de higiene, estéticas ou
de saúde, também se pensa que uma mulher não circunciada não será
capaz de dar à luz, ou que o contato com o clitoris é fatal ao
bebê, e ainda, que melhora a fertilidade da mulher.
(Baseado no livro de Waris
Dire, "Filhas do Deserto", edições Asa.)
Há 140 mi de mulheres com
mutilação genital no mundo, diz ONU
A incidência de mutilação genital
feminina caiu nos últimos anos no mundo, mas estimativas das
Nações Unidas indicam que entre 120 milhões e 140 milhões de
meninas e mulheres foram submetidas a esta prática dolorosa e
perigosa que é alimentada por preconceitos sociais e religiosos.
O relatório
conjunto realizado por agências da ONU, entre estas a Organização
Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef), aponta que 3 milhões de meninas e adolescentes correm
perigo por ano de sofrer esta prática.
Por causa do Dia
Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, a
OMS, Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a População e Unaids,
entre outras, disseram que esta prática pode ser reduzida com o
envolvimento das comunidades e das famílias nos países onde isso
ocorre.
Outra alternativa
é o trabalho realizado pelas agências com políticos, religiosos e
médicos. Mas ainda está longe de alcançar o objetivo de eliminar
totalmente, como quer a ONU.
A OMS documentou
práticas de mutilação genital feminina em 28 países da África e em
alguns da Ásia e do Oriente Médio, que abrangem o chamado "tipo
1", que consiste na extirpação parcial ou total do clitóris, até
as formas mais graves, como é a infibulação, que inclui a cisão
dos lábios maiores e menores e o estreitamento da vagina.
UNICEF
A UNICEF revelou que três milhões de
meninas e adolescentes em África e no Médio Oriente são sujeitas a
mutilação genital todos os anos A mutilação genital ou excisão é
uma prática tradicional na África sub-sariana e no Médio Oriente
que inclui a ablação do clítoris, o que leva em muitos casos à
morte. Como é óbvio, a mutilação genital feminina traz graves
problemas à saúde. Os possíveis efeitos imediatos são muita dor,
hemorragias prolongadas e ferimentos na região do clítoris e dos
lábios. Depois há o risco de contrair tétano, gangrenas, infecções
urinárias crónicas, abcessos, pedras na bexiga e na uretra,
obstrução do fluxo menstrual e cicatrizes proeminentes.Dependendo
da região, a mutilação varia de intensidade. No tipo de mutilação
mais brando, a ponta do clítoris é cortada. Em alguns rituais, ele
é integralmente extirpado (clitoridectomia). Na versão mais
radical, é feita uma infibulação: são retirados o clítoris e os
lábios vaginais e, em seguida, o que sobrou de um lado da vulva é
costurado ao outro lado, deixando-se apenas um minúsculo orifício
pelo qual a mulher urina e menstrua. Associada à castidade e à
crença de que diminui o desejo sexual e reduz o risco de
infidelidade, a mutilação é realizada sem nenhum tipo de
anestesia, com instrumentos não-esterilizados como facas,
navalhas, tesouras, gilletes, tampas de latas ou mesmo cacos de
vidro. Na infibulação usam-se espinhos para juntar os lábios
vaginais maiores e as pernas podem permanecer amarradas por até 40
dias. A mutilação genital é a tortura mais atroz que se pode
infligir a um ser humano, meninas inocentes que são cortadas com
uma gillete e sem nenhuma anestesia Corta-se o clítoris
profundamente, depois eliminam-se os pequenos lábios e corta-se a
parte interior dos grandes lábios. Depois fazem-se buracos com
espinhos de acácia, uma planta muito conhecida na Africa, e
costura-se ficando apenas uma abertura do tamanho de um grão de
arroz para sair a urina e a menstruação que dura 15 dias, sendo as
cólicas insuportáveis. No dia do casamento, o noivo é um
desconhecido e geralmente sempre mais velho. Para poder penetrar a
noiva, corta-a novamente com uma faca ou gilette, ou penetra-a á
força e rasga–a; é ele quem decide, ele é seu dono e senhor. A
mulher passa a ser um objecto e ele faz o que quiser com ela. Os
gritos de dor e angústia são tantos que a cidade inteira sabe o
que se passa. Ali, naquela altura e naquele momento, está sendo
desflorada uma adolescente. Normalmente, enquanto a menina desmaia
de dor o povo faz a festa, ela vai passar 15 dias sangrando e 3
meses com dores. É isto a mutilação genital! A operação dura uma
hora e vinte minutos e enquanto isso a menina desmaia e volta a si
várias vezes, em muitos casos elas morrem de hemorragia ou de
tétano, em outros casos elas nunca mais conseguem falar sobre o
assunto, dizem que não há explicação nem comparação para a dor que
se sente. E a tortura continua. A menstruação é incrivelmente
dolorosa. No parto, podem acontecer complicações sérias para o
bébé e para a mãe.Nessas ocasiões, elas precisam fazer a
reabertura da vagina e qualquer demora acarreta uma pressão às
vezes fatal no crânio e na coluna da criança. Quando a mãe não faz
a abertura da vagina, a saída do bebé do útero pode provocar
cortes que vão da vagina ao ânus. Para além disso, a parteira tem
de as cozer novamente, de forma a deixar a vagina pequena de novo
como um grão de arroz, para aumentar o prazer masculino. Todo este
suplício, angustia e dor servem apenas para aumentar o prazer
masculino, pois as mulheres não sentem nem desejo nem prazer
nenhum, elas são autênticas escravas e são obrigadas a faze-lo,
faz parte de uma cultura bárbara.
Mulheres-Europa
Cruzada contra mutilação genital
Pavol Stracansky
Viena - As centenas de milhares de meninas e mulheres, que correm
o risco de sofrer uma mutilação genital na Europa, levaram várias
organizações de direitos humanos a lançar uma campanha junto a
governantes da região contra o que qualificam de procedimento
brutal e perigoso.
A mutilação genital feminina (MGF) é um termo genérico que
compreende diferentes procedimentos como extirpação total ou
parcial dos genitais externos da mulher ou outro tipo de
intervenção em seus órgãos sexuais sem justificativa médica.
Trata-se de uma prática condenada por vários governos,
organizações médicas e de direitos humanos do mundo.
Os governos europeus aprovaram leis que proíbem o
procedimento, mas os ativistas afirmam que, longe de ser
erradicada, é mantido em várias comunidades. “Precisamos agir. É
animador o compromisso político, mas chegou a hora de tomar
medidas no âmbito local e europeu”, disse à IPS Christine Loudes,
que lidera a campanha encabeçada pelo escritório europeu da
Anistia Internacional. Cerca de 140 milhões de mulheres e meninas
foram mutiladas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS). Além disso, estima-se que aproximadamente outras oito mil
podem sofrer esse procedimento a cada dia.
O tipo de procedimento praticado depende de fatores étnicos e
da localização das comunidades. Bebês com menos de um ano podem
chegar a ser mutiladas, embora o comum seja isso acontecer com
adolescentes de 15 anos. A ablação acontece no que os ativistas
classificam de condições “horrorosas”. Jovens aterrorizadas
costumam ser dominadas por praticantes tradicionais que empregam
objetos cortantes, como facas, lâminas de barbear ou pedaços de
vidro, embora haja provas da intervenção de profissionais médicos.
A OMS define quatro tipos de MGF. Primeiro a clitoridectomia,
que é a retirada parcial ou total do clitóris (órgão pequeno,
sensível e erétil dos genitais femininos) e, em casos muito raros,
apenas o prepúcio (dobra de pele que rodeia o clitóris). Segundo,
a incisão, que é o corte parcial ou total do clitóris e dos lábios
menores, com ou sem incisão dos grandes lábios. Em terceiro, a
infibulação, que é o estreitamento da abertura vaginal para criar
um selo por meio do corte e da recolocação dos lábios menores ou
maiores, com ou sem redução do clitóris. Por fim, todos os demais
procedimentos lesivos dos genitais externos com fins médicos, tais
como perfuração, incisão, raspagem ou cauterização da zona
genital.
As comunidades que a praticam alegam que é para proteger as
meninas de desejos sexuais ilícitos ou porque os genitais
femininos são anti-higiênicos. Em algumas sociedades, as mulheres
que não foram mutiladas são consideradas impuras e proibidas de
manipular alimentos e água. Porém, organizações médicas afirmam
que a MGF não tem beneficio médico algum e acarreta vários riscos.
No curto prazo, pode causar grande perda de sangue, dor crônica,
infecções e até a morte devido à comoção, à hemorragia ou à
septicemia. No longo prazo, as consequências são infecções,
úlceras genitais, danos no sistema reprodutivo e problemas
psicológicos como transtorno por estresse pós-traumático.
Um estudo feito pela OMS em seis países africanos mostra que
as mulheres mutiladas têm significativamente mais riscos de sofrer
complicações durante o parto. A prática também tem consequências
negativas nos recém-nascidos. Entre um e dois bebês em cada cem
partos morrem devido à MGF, segundo a OMS. Há muita documentação
sobre o procedimento na África e no Oriente Médio, e em algumas
comunidades da América do Sul e da Central, o que faz pensar que a
MGF limita-se às regiões mais pobres e menos desenvolvidas do
mundo, afirmam ativistas pelos direitos humanos. Contudo, a
imigração propagou a prática na Europa.
A Anistia Internacional e a OMS informam que há mais de 500
mil mulheres mutiladas neste continente e cerca de 180 mil por ano
correm o risco da mutilação. A ex-top model somaliana Waris Darie,
mutilada quando criança, tem sua própria fundação contra a MGF em
Viena. “A prática floresce de forma ilegal em várias comunidades
da Europa, apesar de estar proibida”, disse Darie. “A ablação é
tabu em muitos países. Na Europa é praticada por comunidades de
imigrantes originários da África ou Ásia. A estimativa de 500 mil
vítimas existentes na Europa se baseia em casos africanos, mas o
procedimento também é praticado em muitas nações asiáticas, no
Iraque e Irã (comum entre os curdos), de onde procedem muitos dos
refugiados que chegam a este continente”, disse Darie.
“Sabemos que muitos pais aproveitam as férias escolares e
levam suas filhas para serem operadas em seus países de origem”,
acrescentou Darie. Os procedimentos feitos na Europa “são
praticados de forma ilegal e é impossível ter números precisos. Há
casos de médicos envolvidos, mas normalmente são praticantes
africanos que costumam vir especialmente para realizar a ablação”,
afirmou. A dimensão real do problema deste continente pode ser
muito maior do que sugerem as estatísticas, afirma a OMS.
“Foram feitos estudos em pequena escala na Europa, e muito do
que sabemos a respeito são suposições e estimativas”, reconheceu
Elise Johansen, porta-voz da OMS sobre MGF. “É muito difícil
conhecer a verdadeira dimensão do problema da mutilação, porque
poucas pessoas admitem tê-la realizado por ser ilegal. A situação
pode ser muito pior do que pensamos”, acrescentou. Há leis
proibindo de forma específica a MGF em alguns países europeus,
como Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamarca, Espanha, Grã-Bretanha,
Itália, Noruega e Suécia. Também é ilegal na França, onde mais de
30 casos de mutilação foram punidos com penas de prisão.
Mas as leis não são totalmente efetivas, segundo as
organizações humanitárias. As dificuldades para detectar o
problema e a falta de denúncias, bem como a falta de provas
suficientes para iniciar um julgamento, impedem que as meninas em
perigo sejam protegidas. Além disso, essas organizações denunciam
a falta de clareza legal em matéria de asilo para as mulheres que
fogem de seus países para evitar a mutilação. “A MGF é motivo de
asilo, segundo as diretrizes da União Europeia (UE), mas nem todos
os países do bloco a incluíram em suas legislações, e algumas
mulheres não recebem a proteção que deveriam ter”, disse à IPS
Prerna Humple, porta-voz da campanha da Anistia, lançada com
outras 12 organizações, para cobrar os governantes a adotarem mais
medidas para deter essa prática.
A campanha “END FNG” (Acabe com a MGF) inclui atividades em
Lisboa, Viena, Nicosia, Bruxelas e Londres. A iniciativa pretende
pressionar os funcionários da UE a tomarem medidas para proteger
as mulheres e as meninas, incluída assistência médica para as
mutiladas, melhores mecanismos de proteção contra a violência e
pautas de asilo claras para as pessoas que podem ser vítimas da
MGF em seus países. Também engloba a melhoria da coleta de dados
sobre a prevalência do problema na Europa e a inclusão do tema na
agenda para o diálogo da União Europeia com as nações onde a
prática prevalece.
As organizações humanitárias também querem que os governos
lancem urgentemente campanhas de informação, por ser a melhor
forma para contribuir com o fim da MGF. “É necessário tratar o
assunto de forma sistemática e reiterada nas comunidades que a
praticam”, insistiu Johansen, da OMS. “Está provado que é a forma
mais efetiva de reduzir a MGF. É preciso educar e informar as
pessoas que a realizam. Já se faz na África, mas falta algo
semelhante na Europa. É responsabilidade do governo implementar
uma campanha desse tipo”, ressaltou. IPS/Envolverde