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 Edição de Março de 2010

 

Waris Dirie

 

 

Waris Dirie , modelo somali, nasceu em 1965, no deserto de Somalia ,  filha de uma família nômade.  Aos 5 anos de idade  sofreu a mutilação genital feminina. Motivo pelo qual converteu-se numa defensora da luta pela erradicação dessa prática

Waris Dirie fugiu da Somália, a sua terra natal depois , aos 13 anos de idade após ser obrigada por seu pai a se casar com um homem de 60 anos. A hoje embaixadora da ONU atravessou praticamente a pé um dos desertos somalicos até chegar a capital de seu país Mogadisco, onde inicia a luta em busca de seu sonho de ser "livre" e de torna-se modelo.

    Em  sua fuga, primeiro foi recolhida pela sua irmã mais velha e pela sua prima em Mogadiscio a capital da somalia. Mais tarde foi levada para Londres pelo seu tio diplomata que foi destacado na capital britânica.

Com 18 anos de idade , o seu tio foi recolocado ao país, ela decide permanecer em Londres e tentar fazer carreira de manequim, à semelhança da sua prima Iman Bowie.

    Enquanto fazia pequenos trabalhos para viver, é descoberta por um fotógrafo e mais tarde por Terence Donovan, o celebre fotógrafo Britânico. Daí fez a capa do calendário Pirelli em 1987. O mesmo ano, entrou no grande ecrã no papel de girl bond no filme: "Matar não é brincar". Foi o início de uma carreira internacional.

    Depois de uma entrevista na revista feminina "Marie Claire" no início dos anos 90, onde evoca a sua mutilação genital, foi contatada pela ONU para tornar-se embaixadora de boa vontade contra as mutilações genitais femininas,  trabalhando para abolir a ablação. Escreveu vários livros sobre suas vivências. Existe uma fundação com seu nome.

    Em Julho de 2007 foi condecorada "Cavaleiro da Legião de Honra" de França pelo presidente Nicolas Sarkozy devido ao seu combate humanitário.

 

Waris Dirie,musa do camarote Bar Brahma

 

O Camarote Bar Brahma, comemorou sua décima edição em grande estilo. O tema escolhido foi  África 360 e, para homenagear o continente, os organizadores do Camarote elegeram a ex-modelo somali Waris Dirie como madrinha, uma escolha inusitada que agregou ao Carnaval um conceito social acompanhado desta ilustre presença internacional.

    Waris sofreu mutilação genital feminina aos cinco anos de idade, e isso a tornou uma das maiores defensoras do fim dessa prática. O Camarote Bar Brahma resolveu contribuir com essa luta e a convidou para que, juntos, promovam a divulgação e contribuam para a erradicação de um dos grandes problemas que ocorre na África.  Atualmente, embaixadora da ONU, ela veio  ao Brasil pela primeira vez a fim de conhecer o Carnaval e atrair novos colaboradores para o combate à circuncisão feminina na Somália.

    Aos 13 anos, após ser obrigada por seu pai a se casar com um homem de 60 anos, Waris fugiu e foi em busca do sonho de se tornar modelo. A história marcante foi publicada em alguns livros e deu origem à Fundação Waris Dirie, criada com o fim de erradicar esse costume somali (Waris Dirie Foundation-www.waris-dirie-foundation.com). O Camarote Bar Brahma desenvolveu diferentes formas de fomentar essa ação social. “Este ano, nossa madrinha, além de uma linda mulher, nos permitirá mobilizar pessoas e empresas em prol de uma causa muito especial. A Waris representa a incansável luta pelo fim dessa prática que vitima fatalmente inúmeras garotas na Somália”, declara Cairê Aoas, diretor do Camarote Bar Brahma.

 

     

 

MGF

Mutilação Genital Feminina

A Mutilação Genital Feminina (sigla MGF), termo que descreve esse ato com maior exatidão, é vulgarmente conhecida por excisão feminina ou Circuncisão Feminina. É uma pratica realizada em varios países principalmente da África, e da Ásia, que consiste na amputação do clitóris da mulher de modo a que esta não possa sentir prazer durante o ato sexual.

   Embora acredita-se que esta prática seja muçulmana, em nada está fundamentada religiosamente, tendo em vista de que os hadices em que tentam conectar a prática ao Islão são fracos, sendo assim, esta prática não é adotada nos países onde a sharia é fortemente estudada.

    Esta prática não tem nada em comum com a Circuncisão Masculina. Segundo essa tradição, pais bem intencionados providenciam a remoção das suas filhas pré-adolescentes do clítoris, e até mesmo dos lábios vaginais. Há uma outra forma de mutilação genital chamada de infibulação, que consiste na costura dos lábios vaginais ou do clítoris.

    A circuncisão feminina é um termo que se associa a um determinado número de práticas incidentes sobre os genitais femininos e que têm uma origem de ordem cultural e não de ordem medicinal. É uma prática muito frequente em certas partes da África e é praticada também na Península Arábica e em zonas da Ásia. A prática da circuncisão feminina é rejeitada pela civilização ocidental. É considerada uma forma inaceitável e ilegal da modificação do corpo infligida àqueles que são demasiado novos ou inconscientes para tomar uma escolha informada. É também chamada de mutilação genital feminina. A circuncisão feminina elimina o prazer sexual da mulher. A sua prática acarreta sérios riscos de saúde para a mulher, e é muito dolorosa, por vezes de forma permanente. No primeiro mundo a cicuncisão feminina é praticada por médicos, que trabalham com anestesia. Ela foi mais aplicada no século 19, em especial até os anos 1960 nos EUA e outros países, principalmente para podar clitórises ou lábios grandes. Achava-se que os órgãos grandes e muitas vezes saindo dos lábios maiores são muito feios e que tais meninas teriam uma maior tendência para tornarem-se prostitutas.

 

Ofensa grave aos Direitos Humanos

A Mutilação Genital Feminina é um costume sócio-cultural que causa danos físicos e psicológicos irreversíveis, e ainda, é responsável por mortes de meninas. Pode variar de brandamente dolorosa a horripilante, e pode envolver a remoção com instrumentos de corte inapropriados (faca, caco de vidro ou navalha) não esterilizados e raramente com anestesia. Viola o direito de toda jovem de desenvolver-se psicosexualmente de um modo saudável e normal. E, devido ao influxo de imigrantes da África e do Médio Oriente na Austrália, no Canadá, nos EUA e na Europa, esta mutilação de mulheres está se tornando uma questão de Saúde Pública. Algo que não se deve desconsiderar são os custos do tratamento contínuo das complicações físicas resultantes e os danos psicológicos permanentes. Têm-se promulgado leis para ilegalizar e criminalizar esse costume. Embora muitos códigos penais não mencionem diretamente os termos Circuncisão Feminina ou Mutilação Genital Feminina, é perfeitamente enquadrado como uma forma de "abuso grave de criança e de lesão corporal qualificada". Vários organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), tem envidado esforços para desencorajar a prática da mutilação genital feminina. A Convenção sobre os Direitos da Criança, assinada em Setembro de 1990, considera-a um ato de tortura e abuso sexual.

 

Problemática sócio-cultural

A Mutilação Genital Feminina é considerado no mundo ocidental um dos grandes horrores do continente africano. A sua prática está cercada de silêncios e é vivida em segredo. Manifestar-se contra esse costume é difícil e, às vezes, perigoso para mulheres ou homens que se opõem. Em muitos casos, são acusados de ser contra as tradições ancestrais - dos valores familiares, tribais, e mesmo de rejeitar seu próprio povo e sua identidade cultural.

    Milhões de pessoas bem intencionadas são desinformadas o que as levam a crer que a Mutilação Genital Feminina é benéfica. A educação e o diálogo são a única maneira de realmente combater os conceitos errados e a superstição. Para a cultura ocidental uma forma de mudar esta mentalidade é educar as mulheres mais velhas que perpetuam esse costume, bem como dos homens mostrando os danos físicos e psicológicos. Normalmente, é o pai que paga para a realização da "cirurgia", para que possa casar suas filhas com homens que não aceitam mulheres incircuncisas. Outro motivo da continuação desse ritual é que é uma importante fonte de rendimento para os que a realizam. Mesmo quando médicos a realizam em algumas clínicas, na tentativa de evitar que as meninas sofram os riscos e traumas resultantes de ablações anti-higiénicas e sem anestesia, todavia, ainda assim para o ocidente considera-se que se trata de mutilação genital feminina.

 

Tradição baseada em conceitos errados

Em muitas culturas desde os países de Africa a Ásia, acreditam que a mutilação genital feminina está certa, os pais, mas mais propriamente a mãe e a avó tem voto na matéria, elas acreditam que se a jovem não for "cortada" nunca irá arranjar um marido, isso é a pior coisa que pode acontecer a uma jovem; tal jovem ter se sujeitado à MGF é uma condição prévia do casamento. Se uma mulher não for mutilada pensa-se que ela não é pura e encaram-nas como prostitutas e são excluídas da sua própria sociedade. Algumas razões que são apontadas para a realização da MGF: assegurar a castidade da mulher, assegurar a preservação da virgindade até ao casamento, por razões de higiene, estéticas ou de saúde, também se pensa que uma mulher não circunciada não será capaz de dar à luz, ou que o contato com o clitoris é fatal ao bebê, e ainda, que melhora a fertilidade da mulher.

 

(Baseado no livro de Waris Dire, "Filhas do Deserto", edições Asa.)

 

Há 140 mi de mulheres com mutilação genital no mundo, diz ONU
 

A incidência de mutilação genital feminina caiu nos últimos anos no mundo, mas estimativas das Nações Unidas indicam que entre 120 milhões e 140 milhões de meninas e mulheres foram submetidas a esta prática dolorosa e perigosa que é alimentada por preconceitos sociais e religiosos.

    O relatório conjunto realizado por agências da ONU, entre estas a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), aponta que 3 milhões de meninas e adolescentes correm perigo por ano de sofrer esta prática.

    Por causa do Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, a OMS, Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a População e Unaids, entre outras, disseram que  esta prática pode ser reduzida com o envolvimento das comunidades e das famílias nos países onde isso ocorre.

    Outra alternativa é o trabalho realizado pelas agências com políticos, religiosos e médicos. Mas ainda está longe de alcançar o objetivo de eliminar totalmente, como quer a ONU.

    A OMS documentou práticas de mutilação genital feminina em 28 países da África e em alguns da Ásia e do Oriente Médio, que abrangem o chamado "tipo 1", que consiste na extirpação parcial ou total do clitóris, até as formas mais graves, como é a infibulação, que inclui a cisão dos lábios maiores e menores e o estreitamento da vagina.

 

UNICEF

A UNICEF revelou que três milhões de meninas e adolescentes em África e no Médio Oriente são sujeitas a mutilação genital todos os anos A mutilação genital ou excisão é uma prática tradicional na África sub-sariana e no Médio Oriente que inclui a ablação do clítoris, o que leva em muitos casos à morte. Como é óbvio, a mutilação genital feminina traz graves problemas à saúde. Os possíveis efeitos imediatos são muita dor, hemorragias prolongadas e ferimentos na região do clítoris e dos lábios. Depois há o risco de contrair tétano, gangrenas, infecções urinárias crónicas, abcessos, pedras na bexiga e na uretra, obstrução do fluxo menstrual e cicatrizes proeminentes.Dependendo da região, a mutilação varia de intensidade. No tipo de mutilação mais brando, a ponta do clítoris é cortada. Em alguns rituais, ele é integralmente extirpado (clitoridectomia). Na versão mais radical, é feita uma infibulação: são retirados o clítoris e os lábios vaginais e, em seguida, o que sobrou de um lado da vulva é costurado ao outro lado, deixando-se apenas um minúsculo orifício pelo qual a mulher urina e menstrua. Associada à castidade e à crença de que diminui o desejo sexual e reduz o risco de infidelidade, a mutilação é realizada sem nenhum tipo de anestesia, com instrumentos não-esterilizados como facas, navalhas, tesouras, gilletes, tampas de latas ou mesmo cacos de vidro. Na infibulação usam-se espinhos para juntar os lábios vaginais maiores e as pernas podem permanecer amarradas por até 40 dias. A mutilação genital é a tortura mais atroz que se pode infligir a um ser humano, meninas inocentes que são cortadas com uma gillete e sem nenhuma anestesia Corta-se o clítoris profundamente, depois eliminam-se os pequenos lábios e corta-se a parte interior dos grandes lábios. Depois fazem-se buracos com espinhos de acácia, uma planta muito conhecida na Africa, e costura-se ficando apenas uma abertura do tamanho de um grão de arroz para sair a urina e a menstruação que dura 15 dias, sendo as cólicas insuportáveis. No dia do casamento, o noivo é um desconhecido e geralmente sempre mais velho. Para poder penetrar a noiva, corta-a novamente com uma faca ou gilette, ou penetra-a á força e rasga–a; é ele quem decide, ele é seu dono e senhor. A mulher passa a ser um objecto e ele faz o que quiser com ela. Os gritos de dor e angústia são tantos que a cidade inteira sabe o que se passa. Ali, naquela altura e naquele momento, está sendo desflorada uma adolescente. Normalmente, enquanto a menina desmaia de dor o povo faz a festa, ela vai passar 15 dias sangrando e 3 meses com dores. É isto a mutilação genital! A operação dura uma hora e vinte minutos e enquanto isso a menina desmaia e volta a si várias vezes, em muitos casos elas morrem de hemorragia ou de tétano, em outros casos elas nunca mais conseguem falar sobre o assunto, dizem que não há explicação nem comparação para a dor que se sente. E a tortura continua. A menstruação é incrivelmente dolorosa. No parto, podem acontecer complicações sérias para o bébé e para a mãe.Nessas ocasiões, elas precisam fazer a reabertura da vagina e qualquer demora acarreta uma pressão às vezes fatal no crânio e na coluna da criança. Quando a mãe não faz a abertura da vagina, a saída do bebé do útero pode provocar cortes que vão da vagina ao ânus. Para além disso, a parteira tem de as cozer novamente, de forma a deixar a vagina pequena de novo como um grão de arroz, para aumentar o prazer masculino. Todo este suplício, angustia e dor servem apenas para aumentar o prazer masculino, pois as mulheres não sentem nem desejo nem prazer nenhum, elas são autênticas escravas e são obrigadas a faze-lo, faz parte de uma cultura bárbara.

 
Mulheres-Europa
Cruzada contra mutilação genital

Pavol Stracansky


Viena - As centenas de milhares de meninas e mulheres, que correm o risco de sofrer uma mutilação genital na Europa, levaram várias organizações de direitos humanos a lançar uma campanha junto a governantes da região contra o que qualificam de procedimento brutal e perigoso.
    A mutilação genital feminina (MGF) é um termo genérico que compreende diferentes procedimentos como extirpação total ou parcial dos genitais externos da mulher ou outro tipo de intervenção em seus órgãos sexuais sem justificativa médica. Trata-se de uma prática condenada por vários governos, organizações médicas e de direitos humanos do mundo.
    Os governos europeus aprovaram leis que proíbem o procedimento, mas os ativistas afirmam que, longe de ser erradicada, é mantido em várias comunidades. “Precisamos agir. É animador o compromisso político, mas chegou a hora de tomar medidas no âmbito local e europeu”, disse à IPS Christine Loudes, que lidera a campanha encabeçada pelo escritório europeu da Anistia Internacional. Cerca de 140 milhões de mulheres e meninas foram mutiladas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, estima-se que aproximadamente outras oito mil podem sofrer esse procedimento a cada dia.
    O tipo de procedimento praticado depende de fatores étnicos e da localização das comunidades. Bebês com menos de um ano podem chegar a ser mutiladas, embora o comum seja isso acontecer com adolescentes de 15 anos. A ablação acontece no que os ativistas classificam de condições “horrorosas”. Jovens aterrorizadas costumam ser dominadas por praticantes tradicionais que empregam objetos cortantes, como facas, lâminas de barbear ou pedaços de vidro, embora haja provas da intervenção de profissionais médicos.
    A OMS define quatro tipos de MGF. Primeiro a clitoridectomia, que é a retirada parcial ou total do clitóris (órgão pequeno, sensível e erétil dos genitais femininos) e, em casos muito raros, apenas o prepúcio (dobra de pele que rodeia o clitóris). Segundo, a incisão, que é o corte parcial ou total do clitóris e dos lábios menores, com ou sem incisão dos grandes lábios. Em terceiro, a infibulação, que é o estreitamento da abertura vaginal para criar um selo por meio do corte e da recolocação dos lábios menores ou maiores, com ou sem redução do clitóris. Por fim, todos os demais procedimentos lesivos dos genitais externos com fins médicos, tais como perfuração, incisão, raspagem ou cauterização da zona genital.
    As comunidades que a praticam alegam que é para proteger as meninas de desejos sexuais ilícitos ou porque os genitais femininos são anti-higiênicos. Em algumas sociedades, as mulheres que não foram mutiladas são consideradas impuras e proibidas de manipular alimentos e água. Porém, organizações médicas afirmam que a MGF não tem beneficio médico algum e acarreta vários riscos. No curto prazo, pode causar grande perda de sangue, dor crônica, infecções e até a morte devido à comoção, à hemorragia ou à septicemia. No longo prazo, as consequências são infecções, úlceras genitais, danos no sistema reprodutivo e problemas psicológicos como transtorno por estresse pós-traumático.
    Um estudo feito pela OMS em seis países africanos mostra que as mulheres mutiladas têm significativamente mais riscos de sofrer complicações durante o parto. A prática também tem consequências negativas nos recém-nascidos. Entre um e dois bebês em cada cem partos morrem devido à MGF, segundo a OMS. Há muita documentação sobre o procedimento na África e no Oriente Médio, e em algumas comunidades da América do Sul e da Central, o que faz pensar que a MGF limita-se às regiões mais pobres e menos desenvolvidas do mundo, afirmam ativistas pelos direitos humanos. Contudo, a imigração propagou a prática na Europa.
    A Anistia Internacional e a OMS informam que há mais de 500 mil mulheres mutiladas neste continente e cerca de 180 mil por ano correm o risco da mutilação. A ex-top model somaliana Waris Darie, mutilada quando criança, tem sua própria fundação contra a MGF em Viena. “A prática floresce de forma ilegal em várias comunidades da Europa, apesar de estar proibida”, disse Darie. “A ablação é tabu em muitos países. Na Europa é praticada por comunidades de imigrantes originários da África ou Ásia. A estimativa de 500 mil vítimas existentes na Europa se baseia em casos africanos, mas o procedimento também é praticado em muitas nações asiáticas, no Iraque e Irã (comum entre os curdos), de onde procedem muitos dos refugiados que chegam a este continente”, disse Darie.
    “Sabemos que muitos pais aproveitam as férias escolares e levam suas filhas para serem operadas em seus países de origem”, acrescentou Darie. Os procedimentos feitos na Europa “são praticados de forma ilegal e é impossível ter números precisos. Há casos de médicos envolvidos, mas normalmente são praticantes africanos que costumam vir especialmente para realizar a ablação”, afirmou. A dimensão real do problema deste continente pode ser muito maior do que sugerem as estatísticas, afirma a OMS.
    “Foram feitos estudos em pequena escala na Europa, e muito do que sabemos a respeito são suposições e estimativas”, reconheceu Elise Johansen, porta-voz da OMS sobre MGF. “É muito difícil conhecer a verdadeira dimensão do problema da mutilação, porque poucas pessoas admitem tê-la realizado por ser ilegal. A situação pode ser muito pior do que pensamos”, acrescentou. Há leis proibindo de forma específica a MGF em alguns países europeus, como Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamarca, Espanha, Grã-Bretanha, Itália, Noruega e Suécia. Também é ilegal na França, onde mais de 30 casos de mutilação foram punidos com penas de prisão.
    Mas as leis não são totalmente efetivas, segundo as organizações humanitárias. As dificuldades para detectar o problema e a falta de denúncias, bem como a falta de provas suficientes para iniciar um julgamento, impedem que as meninas em perigo sejam protegidas. Além disso, essas organizações denunciam a falta de clareza legal em matéria de asilo para as mulheres que fogem de seus países para evitar a mutilação. “A MGF é motivo de asilo, segundo as diretrizes da União Europeia (UE), mas nem todos os países do bloco a incluíram em suas legislações, e algumas mulheres não recebem a proteção que deveriam ter”, disse à IPS Prerna Humple, porta-voz da campanha da Anistia, lançada com outras 12 organizações, para cobrar os governantes a adotarem mais medidas para deter essa prática.
    A campanha “END FNG” (Acabe com a MGF) inclui atividades em Lisboa, Viena, Nicosia, Bruxelas e Londres. A iniciativa pretende pressionar os funcionários da UE a tomarem medidas para proteger as mulheres e as meninas, incluída assistência médica para as mutiladas, melhores mecanismos de proteção contra a violência e pautas de asilo claras para as pessoas que podem ser vítimas da MGF em seus países. Também engloba a melhoria da coleta de dados sobre a prevalência do problema na Europa e a inclusão do tema na agenda para o diálogo da União Europeia com as nações onde a prática prevalece.
    As organizações humanitárias também querem que os governos lancem urgentemente campanhas de informação, por ser a melhor forma para contribuir com o fim da MGF. “É necessário tratar o assunto de forma sistemática e reiterada nas comunidades que a praticam”, insistiu Johansen, da OMS. “Está provado que é a forma mais efetiva de reduzir a MGF. É preciso educar e informar as pessoas que a realizam. Já se faz na África, mas falta algo semelhante na Europa. É responsabilidade do governo implementar uma campanha desse tipo”, ressaltou. IPS/Envolverde


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