Não é de hoje
que os educadores das milhares de escolas que fazem parte das
diferentes redes de ensino brasileiras, públicas ou privadas,
debatem sobre a importância do uso do livro didático para uma boa
aprendizagem dos alunos, sobretudo daqueles que freqüentam os anos
mais avançados do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.
Durante a década de 80 e, talvez, até meados dos anos 90, a
discussão que mobilizava os professores, principalmente na rede
pública de ensino, era se o trabalho educacional e as relações de
ensino e aprendizagem não ganhariam em qualidade se o livro
didático fosse abolido das salas de aula.
O livro didático seria o principal instrumento de produção de um
tipo de aula incapaz de envolver o aluno com o conteúdo das
diferentes disciplinas curriculares, matando, ao mesmo tempo, a
capacidade de criação dos professores, convertidos a reprodutores
e simplificadores de conhecimentos selecionados pelas editoras.
Não se pode dizer que o uso de um ou outro material produz
melhores resultados na aprendizagem dos alunos.
O livro didático
ou a apostila são, a rigor, recursos que sistematizam informações,
ordenando-as em função de uma seqüência que, ao menos
hipoteticamente, melhor atenderiam as diferentes faixas etárias
dos alunos e, ao mesmo tempo, tornariam menos complexas as
estratégias de explicação por parte dos professores. Eles
funcionam como guias, como materiais norteadores da prática
docente, de modo a que este não se perca no turbilhão de
acontecimentos que envolvem o cotidiano.
A aprendizagem educacional é um processo complexo, que envolve
fatores de ordem cultural, econômica, relacional e emocional que
mesmo o melhor livro didático ou sistema apostilado, não serão
capazes de contemplar sozinhos.
De nada adianta ter um bom material didático se não houver
investimento na formação dos professores. Os professores
necessitam de um tempo dedicado ao estudo teórico, já que toda sua
formação e sua cultura docente, nada mais fez que investir em um
praticismo que o afastou fortemente do ato de pensar e de entender
o principal sentido de seu fazer e de uma escola.
O desprezo e a desvalorização do conhecimento teórico do professor
foi, talvez, o fator determinante que levou educadores e escolas a
fazerem escolhas de seus instrumentos de trabalho sem qualquer
base ou justificativa valorativa, colocando-se, freqüentemente, à
mercê das variações do mercado editorial ou das reformas
educacionais. Não se trata, por fim, de demonizar este ou aquele
material didático. Qualquer deles oferecem vantagens e
desvantagens para o educador e para as escolas, mas não há
material perfeito.
Edmilson de Castro
Fonoaudiólogo
é fundamental no tratamento do disléxico
Profissional
auxilia na associação entre o som e a escrita
A dislexia é um
distúrbio de aprendizagem nas áreas de leitura, escrita e
soletração, que afeta entre 5 a 10% da população escolar.
Provocado por um conjunto de fatores genéticos e neurológicos,
demanda atenção multidisciplinar. Entre os profissionais
envolvidos no atendimento ao disléxico está o fonoaudiólogo. Ele é
justamente a pessoa habilitada a trabalhar a dificuldade em
associar os sons da fala, os fonemas, às letras correspondentes.
Muitas vezes negligenciada ou confundida com preguiça, a dislexia
vem recebendo destaque na história de Clarissa, personagem
interpretada pela atriz Bárbara Borges na novela Duas Caras,
da Rede Globo. Como todos os disléxicos da vida real, ela é
inteligente, uma pessoa normal. Suas maiores dificuldades são ler
e compreender um texto ou, ainda, transmitir seus conhecimentos
por meio da escrita. Tanto é que foi aprovada no vestibular ao ser
submetida a uma prova oral.
“Para ler e escrever, é preciso saber pensar sobre a fala, dividir
a fala em unidades menores e associar os fonemas às letras”,
explica a fonoaudióloga Maria Thereza Mazorra, especialista em
Linguagem, representante do Conselho Regional de Fonoaudiologia -
2a Região. “Às vezes, essa passagem é difícil”,
continua ela.
É nesse momento que entra em ação o fonoaudiólogo. “Ele estabelece
estratégias para facilitar a leitura, para ajudar o indivíduo a
associar o som à escrita”, conta a profissional. “E também
estimula outras áreas, como a linguagem oral, para compensar o
problema.”
Coça, coça
cabecinha:
é piolho à
vista!
Coçar a cabeça é
um ato comum que pode ser indício de pediculose, mais conhecida
como piolho. Uma doença provocada pela infestação do inseto de
nome científico Pediculus
humanus capitis e que se
alimenta do sangue do couro cabeludo e provoca uma coceira
intensa.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o piolho aparece em
cabelos higienizados e saudáveis de crianças ou adultos,
independente da classe social. “Este inseto gosta de cabeça limpa,
portanto, quem lava os fios diariamente também corre o risco de
ser afetado pelo problema”, afirma o consultor técnico da Condor,
Gennaro Preite.
O piolho é um inseto que não tem asas e nem pernas adaptadas para
o salto. A transmissão acontece pelo vento, já que o animal é leve
e carregado pela corrente de ar. Outra forma de contagio é o
contato direto – abraços e convivência em ambientes pequenos - por
este motivo, ocorre à alta incidência em crianças em idade
escolar, já que brincam juntos e compartilham os mesmos objetos,
como escovas para cabelos.
“Com base no Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC),
de 30 a 40% das crianças brasileiras estão infestadas com o
inseto”, afirma Gennaro.
O piolho se alimenta de sangue humano e vive entre 30 a 45 dias.
Dependendo da espécie, a fêmea pode colocar até 300 ovos durante
sua vida que são as famosas lêndeas.
Existem três
variações de pediculoses:
1. Pediculose
do Couro Cabeludo:
provocada pela presença do “Pediculus
humanus capitis”
e lêndeas presas nos fios de cabelo. Atinge preferencialmente
crianças em fase escolar;
2. Pediculose
do Corpo:
tem como causador o “Pediculus humanus corporis”
(conhecido como muquirana) e lêndeas que são depositadas nos pêlos
e roupas dos indivíduos;
3. Pediculose
Pubiana:
causado pelo “Phthirus
púbis”
(vulgarmente chamado de chato) e lêndeas que se instalam nos pêlos
pubianos.
Para o tipo mais comum da doença, a capilar, o mais indicado é
utilizar a “receita da vovó”: o velho e bom pente fino. Higienizar
os fios com o shampoo de costume ou os indicados para o problema,
vendidos em farmácias, e passar, durante o banho e várias vezes ao
dia, o pente nos cabelos.
O consultor da Condor afirma que o ato de pentear com este modelo
de utensílio faz com que o inseto saia da cabeça.
Vale ressaltar que o uso do medicamento só é recomendado com a
prescrição médica. Utilizar, também, de panos úmidos com
inseticidas é terminantemente proibido. Muito comum no passado,
principalmente no interior do Brasil, esta forma de acabar com o
problema é extremamente prejudicial à saúde de quem o aplica ou
recebe.
Esse produto nada mais é que veneno e não faz nenhum efeito sobre
a lêndea, porém pode provocar lesões no couro cabeludo. Vale
ressaltar que o inseticida não é recomendado nem em animais,
apenas com o objetivo de eliminar e/ou espantar mosquitos, baratas
e ratos.
Dicas:
quando a criança tem algum destes sinais, é piolho à vista!
- Feridas na
cabeça decorrentes do ato de coçar;
- Piolho ou lêndeas nas sobrancelhas e nos cílios;
- Marcas vermelhas de picadas;
- Gânglios inchados no pescoço (íngua).
Gennaro Preite
Transtorno de Déficit de Atenção /Hiperatividade atinge cerca de 7 -
10% da População Mundial
O
que é TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade ou mais
conhecido como DDA-Distúrbio de Déficit de Atenção? Crianças que
freqüentemente não prestam atenção a detalhes ou cometem erros por
omissão em atividades escolares, de trabalho ou outras; com
freqüência não parece ouvir quando lhe dirigem a palavra, não seguem
instruções, não terminam os deveres escolares; agitam as mãos e os
pés ou se remexem na cadeira; não param sentados; correm ou escalam
demasiadamente, parecem estar a mil por hora e falam em demasia;
respondem de forma precipitada e não conseguem aguardar sua vez.
Segundo o Prof. Gildo Angelotti, diretor clínico do Instituto de
Neurociência e Comportamento de São Paulo, é possível identificar o
transtorno após os quatro anos de idade, mas confirma-se com mais
precisão, na idade escolar, pois antes desta faixa etária, os pais
notam apenas uma certa agitação psicomotora, dificuldade para dormir
e o que chamamos de hiperfoco: algo lúdico, p.ex:, Videogame.
Geralmente, são os professores com a ajuda dos pais que notam as
primeiras características de uma criança distraída e ao mesmo tempo
agitada, porém muitos professores, não fazem idéia do que aconteça
com aquela criança. Na primeira reunião de pais e mestres, a bomba.
"Seu filho é muito agitado, e anda
atrapalhando o andamento das aulas".
Alguns pais ficam revoltados com a conduta do professor, outros
acham que faz parte do desenvolvimento, pois "comigo foi igual e
depois tudo mudou". "Faz parte do crescimento".
O TDAH atinge cerca de 7-10% da população mundial. No Brasil não é
diferente. Não está relacionado com a cultura, nem com classe
social. É Neurobiológico.
"É como se fosse um fio partido dentro do cérebro. Uma região não
consegue entrar em contato com a outra. Isso causa danos profundos
na vida da pessoa, se não tratada".
Comenta o Prof.Angelotti.
Hoje, a doença é mais conhecida, tanto no meio médico quanto no
psicológico. Inúmeras pesquisas foram feitas e são realizadas em
busca de melhores benefícios para a vida do paciente.
Os medicamentos mais utilizados são os psicoestimulantes e os
antidepressivos, como segunda escolha, ou seja, para aqueles que tem
dificuldade de se adaptar ao remédio, ou mesmo para os que não
apresentam boa resposta à medicação.
O uso indiscriminado de psicoestimulantes chama atenção à classe
médica, pois a prescrição deve ser fornecida com base na certeza do
diagnóstico.
Pessoalmente, Gildo acredita que uma criança, apesar da confirmação
diagnóstica ser após os quatro anos de idade, apresenta suas
ressalvas quanto à idade e a fase de desenvolvimento que a criança
se encontra. "Não podemos esquecer que ela está em plena fase de
desenvolvimento e pode apresentar comportamentos muito parecidos e
não se caracterizar como tal", acrescenta o professor.
Na verdade, de acordo com inúmeras pesquisas, que sem o
psicoestimulante nada se altera. Algumas ao longo da adolescência e
fase adulta perdem um pouco destas características, mas outras
mantêm e perdem muito em qualidade de vida.
Quanto mais cedo for diagnosticado, melhor para a criança e para
aqueles que convivem com ela. O diagnóstico tardio prejudica o
avanço da criança na escola, nos relacionamentos e na probabilidade
de ganhar mais um probleminha: as comorbidades. Drogas lícitas e
ilícitas, aumento da ansiedade, problemas relacionados ao humor,
conduta agressiva, etc.
Atualmente, o mais indicado é a Psicoterapia de base
Cognitivo-Comportamental e o tratamento medicamentoso em paralelo. A
Psicoterapia irá ajudar a criança, adolescente ou mesmo o adulto, a
discriminar comportamentos inadequados, pensamentos considerados
tóxicos ou irracionais, que fazem com que se sintam "inúteis",
"incompreendidos" ou aprender a lidar com a própria frustração.
Prof. Gildo Angelotti
Mochila escolar: saiba calcular o peso que seu filho pode carregar
Todo
ano é a mesma coisa. Uma lista extensa de materiais escolares
transforma a mochila de crianças e adolescentes em um verdadeiro
inimigo da saúde. Segundo a fisioterapeuta Sandra de Farias, do
Instituto Patrícia Lacombe, com sede em Campinas, carregar um peso
maior do que o adequado aumenta consideravelmente a pressão sobre os
discos intervertebrais, que funcionam como amortecedores da coluna.
“O excesso sobre os discos pode reduzir o espaço entre as vértebras,
comprimindo raízes nervosas e ocasionando, até mesmo, as temidas
hérnias de disco”, destaca.
É fácil saber se a carga é excessiva: o aluno deve
transportar, no máximo, 10% de seu peso corporal. A escolha da
mochila também é assunto sério. “É melhor optar por peças que vêm
com amortecedores para a região dorsal e cinto, para mantê-las bem
junto ao corpo. Alças acolchoadas também ajudam a amortecer a
pressão sobre os ombros”, orienta. Outra dica é evitar aquelas que
têm muitos detalhes - como bolsos e enfeites – porque eles aumentam
o peso final.
A forma de carregar a mochila é um capítulo à parte.
“Ela deve ser sempre distribuída nos dois ombros e não de um só
lado. No caso daquelas que têm rodinhas, é importante escolher uma
peça com puxador adequado para a altura da criança e orientá-la a
alterna o braço que puxa, para evitar risco de escoliose e outros
prejuízos para a coluna”, descreve.
A fisioterapeuta Karina Alonso lembra ainda a importância de
observar cuidadosamente a postura dos filhos no dia-a-dia. “A
atenção deve ser redobrada quando há diferença na altura dos ombros,
quando há projeção de ombros para frente ou quando a curvatura atrás
da cintura aumenta. Outro aspecto importante é verificar se, quando
dorme, a criança respira pela boca, pois isso também facilita o
desenvolvimento de algumas alterações posturais, entre outros
problemas de saúde”, esclarece.
Grande parte dos problemas de coluna começam a ser
construídos na infância. Cuidados essenciais com os hábitos
posturais podem ser a garantia de não entrar para estatísticas cada
vez mais assustadoras. De acordo com a Organização Mundial de Saúde
(OMS), 80% da população sofrem ou sofrerão de dor lombar em um
período da vida. E mais: 90% experimentarão situações de afastamento
do trabalho e das atividades de rotina por conta da má postura. “A
boa notícia é que 94% dos casos podem ser evitados. E a atenção na
infância é o primeiro passo”, enfatiza Dra. Sandra.
Carla Furtado e Paulo Roberto Lima
Editoria de Saúde
Saiba como funciona uma "escola
sustentável"
Um dos assuntos de maior destaque na
imprensa nacional e internacional nos últimos tempos é, sem
dúvida, a problemática ambiental. O tema vem ganhando, ano a ano,
mais espaço na vida das pessoas, que se mostram cada vez mais
dispostas a fazer a sua parte nessa história, mudando seu estilo
de vida e o seu comportamento.
A pauta
está também na ordem do dia das instituições de ensino que, por
meio de seus projetos e ações, transformam a preocupação com a
questão ambiental em cultura escolar. “A escola tem uma
importância ímpar no trabalho de conscientização daqueles que
viverão um futuro com muitas dificuldades, caso o panorama atual e
as perspectivas previstas por estudiosos ambientais se confirmem”,
adverte Débora Regina Pires Moreira, coordenadora de projetos da
Agenda 21 da escola Stance Dual, em São Paulo. Agenda 21 é um
documento que surgiu a partir da Conferência Mundial ocorrida em
1992, no Rio de Janeiro, ECO-92, cujo objetivo é formular
políticas que respeitem o meio ambiente, o homem e a sua
interação, sempre sob a perspectiva da sustentabilidade.
Nessa
escola, a questão ambiental é tratada como tema transversal e faz
parte do currículo. Segundo a coordenadora, o foco de trabalho
passa por questões relacionadas aos elementos físicos e biológicos
e ao modo como o homem interage com a natureza. Vale destacar que
tal conteúdo não se detém apenas às ciências, mas percorre em
espiral diversas áreas do conhecimento. “Nosso compromisso está na
construção do conhecimento com base nos conceitos científicos.
Além disso, nossa meta é trabalhar com a formação de valores e
atitudes, formando cidadãos conscientes e comprometidos. Os alunos
devem ser multiplicadores capazes de atuar além dos muros da
escola”, acrescenta.
Para que a
Agenda 21 possa alcançar seus propósitos é necessário desdobrá-la
em agendas regionais, nacionais e locais. A Stance Dual é a
primeira escola particular de São Paulo a possuir sua própria
Agenda 21 interna desde 2000, com várias ações caracterizadas em
campanhas organizadas com o apoio da comunidade: substituição das
toalhas de papel por toalhas de pano e de copos plásticos por
canecas e garrafinhas squeeze; implantação da coleta seletiva de
lixo na escola, na Praça Contos Fluminenses e Creche Aconchego;
Recicloteca (oficina permanente de reciclagem e produção
artesanal); coleta de tampinhas plásticas flexíveis para doação à
Associação Dorina Nowil; coleta de óleo de cozinha em parceria com
a ONG Trevo para a produção de produtos de limpeza doados à
creche; produção de adubo na composteira, etc.
Em 2008, a
idéia é fazer a manutenção das campanhas iniciadas há sete anos,
além de novas ações que serão desenvolvidas de acordo com o
currículo de cada série, como o monitoramento da qualidade da água
do rio Tietê pelos alunos de 5º ano, em parceria com a SOS Mata
Atlântica.
Para saber
mais sobre os projetos da Stance Dual acesse
www.stance.com.br
A dura
realidade do
estudante do
período noturno
A rotina diária
de levantar cedo, trabalhar o dia todo, e enfrentar as
dificuldades de trânsito e transporte faz parte da realidade de
dezenas de milhões de brasileiros. Entretanto, para 2,7 milhões,
esse hábito é seguido de atividades estudantis no período noturno,
alimentação inadequada e um percurso de volta ao lar marcado pela
insegurança.
Acresça-se ao cenário uma reduzida quantidade de
horas de sono, pouco lazer e a própria legislação trabalhista, que
não oferece flexibilização de horário de trabalho para o
estudante-trabalhador e não propicia benefício-alimentação
adicional que assegure uma refeição antes das aulas, uma vez que a
locomoção é feita diretamente do local de trabalho para a
instituição de ensino.
Essa foi a constatação de uma tese desenvolvida sobre o impacto do
“entorno educacional” no cotidiano do estudante do ensino superior
noturno, a qual pesquisou 340 estudantes da cidade de São Paulo e
de dois municípios do interior paulista, um da região de Campinas
e outro de Araçatuba.
O ensino superior noturno é recente no Brasil – tem menos de 50
anos de existência. No entanto, possui alta representatividade
numérica e mostra-se crescente: totaliza 60% do total de
matrículas do país e 70% do Estado de São Paulo. Ao longo dos
últimos anos, transformou-se em instrumento de inclusão social,
pois nele o jovem busca sua formação profissional, enquanto o
trabalho remunerado durante o dia oferece-lhe subsídios
financeiros para viabilizar os estudos.
Os pesquisados
reclamam das aulas expositivas não-dialogadas, com baixa
interatividade, pouca utilização de recursos tecnológicos que
estimulem sua participação, causando desinteresse, apatia e sono.
Na Capital, o trânsito e o trabalho depois do expediente normal
são fatores que causam atrasos, perda de aulas e provas. No
interior do Estado, o longo trajeto em estradas é outro fator
dificultador, porque, muitas vezes, o curso desejado não é
oferecido na cidade do estudante. O que há em comum para os
estudantes das cidades pesquisadas é a presença da violência após
o encerramento das aulas, quando estes ficam expostos aos riscos
da noite, período de maior índice de delitos.
Os
pesquisados (86% são estudantes-trabalhadores) alegam que os
atrasos na chegada à instituição os impedem de realizar pesquisas
antes da aula ou mesmo freqüentar bibliotecas, diminuem o convívio
social e impedem que se alimentem. As dificuldades atingem de
forma indiscriminada estudantes de todos os níveis
sócio-econômicos.
Passando ao
largo pelo protecionismo ou assistencialismo, destaca-se que a
instituição de ensino e o “extramuros” não reconhecem essas
dificuldades. A instituição deveria disponibilizar infra-estrutura
(biblioteca, secretaria, laboratórios) em horários depois das
aulas, bem como ter seu projeto pedagógico compatível com a
realidade do aluno do noturno, e oferecer recursos tecnológicos e
capacitação ao corpo docente, possibilitando o desenvolvimento de
conteúdos atualizados. Também deveria buscar integração com
empresas de transportes para compatibilizar horários e demandas.
Nessa mesma
linha, as prefeituras deveriam criar e manter faixas de travessia
de pedestres, iluminar as áreas próximas às instituições,
organizar o fluxo de veículos na chegada e saída dos estudantes.
Já a Secretaria de Segurança Pública poderia ter um contingente
repressivo maior no período noturno (entre 22 horas e meia-noite),
horário de maior circulação de estudantes, e estender a realização
de rondas escolares às instituições de ensino superior.
Adicionalmente, os empresários, em meses letivos, poderiam
flexibilizar o horário de trabalho e ampliar o valor do
benefício-alimentação para tais estudantes.
Muito se fala sobre a importância da Educação na formação de um
país, de seu povo e, sobretudo, das conseqüências da melhoria na
qualidade de vida. Na atualidade, falar em Educação como
prioridade transformou-se em discurso politicamente correto de
intelectuais, empresários e políticos. Essa é a hora de dar um
basta na expectativa de que “o outro” faça algo, pois a Educação
clama por ações imediatas tanto do extramuros como do intramuros
das instituições de ensino. Ações que sejam integradas,
sincronizadas e amparadas por planos e políticas públicas; que se
sobreponham a cores partidárias, tendo um real compromisso com a
sociedade e a formação do povo brasileiro.
Armando Terribili Filho
Letra feia pode ser distúrbio de
aprendizagem
A Disgrafia (dis=dificuldade e
grafia=grafar/escrever) é um transtorno da escrita resultante de
um distúrbio de integração visual-motora, que afeta a capacidade
de escrever ou copiar letras, palavras e números. Trata-se de um
transtorno funcional e apresenta-se em crianças com capacidade
intelectual normal, sem transtornos neurológicos, sensoriais,
motores e/ou afetivos que justifiquem tal dificuldade.
Apesar de
alguns autores terem visões diferentes quanto ao termo disgrafia e
disortografia, abordaremos a disgrafia como sendo um prejuízo que
o indivíduo possui na execução do ato motor destinado à escrita e
não das trocas, omissões, inversões e contaminações de
letras/palavras, que seriam características da disortografia.
De modo
geral, a escrita é uma linguagem visual expressiva, que faz uso de
uma série de operações cognitivas, tais como percepção auditiva,
visual, discriminação tátil, cinestésica. Ou seja, é um sistema
visual simbólico, que converte pensamento, sentimento e idéias em
símbolos gráficos, que envolve análise de todos estes subsistemas.
Para o
desenvolvimento da escrita adequada, existem alguns
pré-requisitos, como aspectos cognitivos, afetivo, motor e
linguagem que são necessários observar:
- Esquema corporal (planta do
indivíduo) é a organização das sensações relativas ao seu próprio
corpo em relação ao mundo exterior;
- Lateralidade (dominância=força e
precisão) conceito de direita e esquerda será mais fácil de ser
interiorizado a medida que sua dominância for mais homogênea;
- Estruturação espacial: o indivíduo
deve ser capaz de situar-se e situar objetos uns em relação aos
outros;
- Orientação temporal: envolve a
capacidade de situar-se em função da sucessão dos acontecimentos
(antes, após, durante), duração dos intervalos, noções de tempo
longo e curto (hora, minuto), ritmo regular, irregular
(aceleração, freada);
- Pré-escrita: domínio do gesto e da
direção gráfica (da esquerda para direita).
Quando
realizamos uma avaliação psicomotora, observamos algumas
características que podem auxiliar no diagnóstico, e que
diferenciam os subtipos de disgrafia: Pura (inconsciente): quadro
disgráfico em crianças com conflitos emocionais importantes, que
usam a escrita para chamar a atenção pela “letra defeituosa”.
Conflito emocional importante:
escrita instável, com proporções
inadequadas;
deficiente espaçamento e inclinações
Mista: apresenta conflitos
emocionais associados à déficits perceptivo-motor (tipo de
disgrafia mais freqüente):
- dificuldade na forma, tamanho da
letra;
- inclinação defeituosa (inicia uma
frase no canto superior esquerdo e acaba no canto inferior
direito);
- deficiente espaçamento entre
letras, margens;
- ligamento defeituoso entre letras
da palavra;
- não direciona o giro da escrita;
- pressão do lápis ou caneta na
escrita ou falta desta;
- rasuras;
- transtorno de ritmo;
- alteração de postura;
- letra ininteligível
- lentidão;
- alteração dos fatores psicomotores;
- impulsividade;
- transtorno da atenção;
- transtorno do esquema corporal;
Reativas: devido
a transtorno maturativo, pedagógico ou neurológico.
Inicialmente não possuem componentes
de alteração emocional.
Há ainda a
Disgrafia caligráfica ou motora, que ocorre alteração na forma das
letras e na qualidade da escrita em seus aspectos percepto-motores.
Em crianças menores, podemos observar dificuldades motoras de
ritmo. Porém, somente após a alfabetização pode ser feito o
diagnóstico. Para tanto é fundamental uma avaliação com
profissional especializado na área.
Os
exercícios de pré-escrita e grafismo são necessários para
aprendizagem das letras e números. Sua finalidade é fazer com que
a criança atinja o domínio do gesto e do instrumento, a percepção
e a compreensão da imagem a reproduzir.
É
importante que o indivíduo seja estimulado a realizar exercícios
para o ombro, como movimentos de abrir e fechar com o brinquedo
vai e vem e bolas; cotovelo (peteca), punho, mão e dedos. Estes
exercícios poderão ser feitos utilizando técnicas de percepção
corporal, como por exemplo relaxamento, massagens, prancha de
equilíbrio e com a utilização de alguns materiais (argila,
massinha, tinta , jogos).
A seguir
exercícios de grafismo para professores trabalharem em sala de
aula:
Gestos no
plano vertical (utilizando lousa, papel, pincéis, giz de cera e
canetas hidrocor) para aprender a segurar corretamente o lápis;
Grandes
desenhos que vão diminuindo a medida que a criança desenvolve
habilidade de ombro, cotovelo e passa a adquirir destreza de punho
e dedos;
O trabalho
deve ser realizado sempre da esquerda para a direita.
Raquel Caruso
Para que professores não precisem
ser legendados (ou a Síndrome de Camões)
Camões em os Lusíadas foi traduzido
para todas as línguas, sem exceção, inclusive para a própria
Língua Portuguesa; compôs sob a égide do Latim, com a sintaxe da
Língua Latina, com um léxico extremamente erudito e,
evidentemente, sem as notas de rodapé explicativas, seja da
sintaxe, da estilística ou das citações mitológicas, como nas
edições mais modernas. Portanto, dado o estágio do contexto
sociocultural português no século XVI, ninguém na sua época o deve
ter entendido e sequer, lido: os níveis de linguagem, os
repertórios de autor e leitor eram, continuam a ser e sempre serão
muito diferentes.
Tenho certeza de
que nós professores, especialmente os universitários, muitas
vezes, vemo-nos tomados pela Síndrome de Camões, ou seja: sentimos
necessidade de tradutores, temos a nítida sensação de que nossos
alunos não nos conseguem entender.
Nas Faculdades Integradas Rio Branco
tenho a possibilidade de trabalhar com deficientes auditivos que
me “escutam” por meio do intérprete de Libras (Língua de Sinais
Brasileira) e penso: como seria bom ser interpretada/ traduzida/
legendada para que todos pudessem, não apenas escutar, mas ouvir e
daí entender, relacionar, comparar, analisar, julgar, criticar,
conceituar, deduzir, generalizar, discutir, explicar ... enfim,
fazer parte desse processo dialógico que é o verdadeiro
aprendizado.
Nós
passamos pelas transformações tecnológicas, eles estão totalmente
engajados nelas. São homólogos ao computador, alimentados pela
informação, não vêem necessidade de entender os mecanismos mais
profundos das linguagens, sua articulação sintática; conseguem da
informação tirar algum sentido e o nível semântico reduz-se às
primeiras camadas de qualquer tipo de texto. Dominam a
instantaneidade, a simultaneidade de mensagens e esbarram na
linearidade da palavra, do código verbal oral ou escrito, na fala
humana a que Hjelmslev denominou “o título de nobreza da
humanidade”.
Nobres e
plebeus temos que nos entender. O verdadeiro professor, aquele que
professa, que põe fé em sua função e em seus alunos, tem que
recuperar o velho construtivismo socrático de fustigar e conduzir
o aluno pela construção de seu próprio conhecimento. Certo é que
Sócrates, além de professar, tinha um método e a habilidade de
fazer as pessoas se expressarem, mesmo quando as idéias não
estavam ainda bem claras e formuladas. A clareza, a claridade, a
luz vinham do diálogo.
Como,
então, dialogar com nossos alunos sem necessidade de sermos
legendados? Acredito que iniciando a “conversa” com as ferramentas
que eles dominam e que lhes desperta interesse. Por que não os
podemos conduzir do hipertexto à magia de textos escritos que
sedimentam e garantem a integralidade da comunicação? Por que não
os podemos fazer mergulhar nas camadas de uma escrita bem
articulado e no prazer de dominar o tempo da leitura e, assim, se
poder conceder o espaço necessário para assimilar a informação no
simples ato de ler e reler? É um procedimento encantatório, sem
dúvida nenhuma, um jogo de sedução, que uma vez vencido não se
consegue abandonar.
Tenho
experimentado de tudo, ensinado metodologia partindo de textos
como Citizen X (filme de Jeffrey DeMunn - Cidadão X), Matrix ou
Beleza Americana, análise sintática tendo como referente quadros
de Picasso ou o Bolero de Ravel e dialogando, sempre procurando
dialogar não só com os alunos como também com colegas das mais
diversas áreas. Resultado: troca de experiência, atividades
conjuntas, material abundante e rico e, o mais desejado, a
atenção do aluno
É mais
demorado? Sem dúvida. É mais trabalhoso? Evidente. Mas todos
sabemos que vale a pena.
Professores: conheçamos nossos alunos, descubramos seus
interesses, transmitamo-lhes segurança, liberdade e capacidade de
expressão. Tenhamos a certeza de dialogar.
E...continuemos a professar!
Virgínia Maria Antunes de Jesus
Quatro passos para a educação que
queremos
Mais de 40% dos jovens de 18 a 29
anos que vivem nas cidades de Alagoas e da Paraíba são analfabetos
ou cursaram apenas parte do ensino fundamental. Em outros 11
estados do país, essa porcentagem é superior a 30% e em nove
supera 20%, ficando abaixo desse último percentual em apenas
quatro: Paraná (18%), Amapá (17%), Santa Catarina (16%) e São
Paulo (15%), além do Distrito Federal (17%).
Os dados
são de fonte oficial, a Secretaria Geral da Presidência da
República, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios – PNAD, do IBGE, e mostram que o país está longe, muito
longe de ter uma situação educacional que possibilite assegurar um
desenvolvimento sustentado, com um futuro melhor para a parcela
mais carente da população.
O Instituto
PNBE de Desenvolvimento Social realizou um levantamento em cidades
que apresentaram melhorias na educação nos últimos anos, segundo
os métodos oficiais de avaliação. A partir daí organizou um
workshop com especialistas, professores e estudantes da periferia,
que identificou caminhos para superar a atual situação e
possibilitar que cheguemos a 2022 com todos (ou quase todos) os
jovens dessa faixa etária com pelo menos 12 anos de escolaridade
eficaz, como propõe o Projeto Brasil 2022 – Do País que Temos ao
País que Queremos, lançado pelo PNBE Pensamento Nacional das Bases
Empresariais em 2003. Nesse workshop foram duas as principais
reclamações dos estudantes da periferia, comprovando as pesquisas
sobre o abandono dos estudos: a má condição física das escolas, e
o ensino desinteressante.
O primeiro
passo para a mudança é definir claramente que a responsabilidade
pelo ensino infantil e fundamental é do município – hoje menos de
30% dos municípios assumem essa função, enquanto os outros 70%
dividem-na com o estado ou deixam por conta deste. Recursos
estaduais e federais são vistos como dinheiro de ninguém, levando
a desperdício e mau uso.
Um segundo
passo é envolver a comunidade no processo educacional – o trabalho
do Instituto PNBE mostra que, quando isso acontece, a situação se
transforma. Esse envolvimento passa pela descentralização, maior
transparência no uso de recursos, maior delegação de decisões às
Associações de Pais e Mestres, e outras iniciativas. Uma
competição entre escolas públicas do município, com premiação e
reconhecimento das que tiverem melhor desempenho - no ensino, em
música, artes, etc. envolve a comunidade na manutenção e
permanente melhoria das unidades, reduzindo a também a degradação
que é um problema sério em muitos locais.
Um terceiro
passo é melhorar a gestão, com dois diretores em cada escola – um
da área pedagógica e outro de administração, contratados a partir
de concurso público. Eles escolhem sua escola, com base à suas
notas, como ocorre em judiciários estaduais e sistemas escolares
de alguns estados. Periodicamente eles devem ser avaliados pelo
poder público e pela comunidade, sendo substituídos se o
desempenho não for adequado.
O quarto
passo é melhorar o conteúdo, que precisa ser estimulante e bem
apresentado. O Governo Federal deve definir apenas o que é básico
para todas as escolas, o Governo Estadual complementa com
especificidades regionais e o município ajusta o ensino às
condições locais. Em vários municípios isso vem sendo feito com
sucesso, reforçando a visão do agronegócio e outros aspectos da
realidade local. Os professores necessitam também de novo tipo de
formação e de reciclagem permanente, quanto ao conteúdo e à forma.
Um professor bem treinado e informado, que facilita a
participação, mantém a atenção de uma turma de 25, 30 ou mais
alunos, enquanto quem transmite mecanicamente o conteúdo não
mobiliza o interesse pela aprendizagem, mesmo com poucos
estudantes na sala.
Na área
financeira, o Governo Federal deve equalizar os salários dos
professores, como propõe o PDE Plano de Desenvolvimento da
Educação, além de pagar a bolsa-estudante ou bolsa aprendiz para
evitar que o aluno fuja da escola por razões econômicas. Ao
Governo Estadual cabe complementar os recursos e cuidar do
treinamento de professores. A responsabilidade principal é do
município, aí incluídos além da Prefeitura, as entidades da
sociedade civil, que devem fiscalizar o uso dos recursos e a
eficácia do ensino, e a comunidade que precisa cobrar. Como dizia
o falecido governador André Franco Montoro, “o que pode ser feito
pelo município não deve ser feito pelo estado e o que pode ser
feito pelo estado não deve ser feito pelo governo federal” – o que
vale em outros países grandes também na área educacional.
Mario Ernesto Humberg
Educar não se resume a prover
alunos apenas de competências técnicas, mas também de competências
comportamentais e valorativas, tendo o respeito e a integridade
como primordiais, numa lição que se ensina de uma única maneira:
através do exemplo.
Administração do Tempo se Aprende
na Escola
“Educa a criança no caminho em
que deve andar;
e até quando envelhecer não se
desviará dele.”
(Provérbios 22:6)
A primeira vez
que me coloquei a refletir sobre o tema foi durante as chamadas
“festas juninas”. A escola organizou, como de costume, uma
cerimônia daquelas, com direito a barracas, jogos, comes e bebes.
A comemoração,
originária da tradição pagã de celebrar o solstício de verão, deve
ter chegado às escolas com intuito de confraternização. Depois é
que descobriram que o evento poderia funcionar também como um
grande reforço do caixa. Alunos criam toda a decoração, pais
oferecem as prendas e ambos trabalham na organização, enquanto
convidados compram convites e pagam pelos dotes.
O ponto alto de
uma quermesse atende pelo nome de quadrilha. Bons tempos em que
isso representava alegria e pureza... Creio que logo virá de
Brasília uma Medida Provisória exigindo exclusividade no uso do
termo!
Mas o fato é que
por trás da dança folclórica há toda uma simbologia. A evolução
ritmada praticada pelos casais. As coreografias desfiladas com
entusiasmo. O cavalheirismo dos jovens a servir as damas,
tirando-lhes o chapéu, conduzindo-as com altivez. O respeito ao
mestre “marcador” que dita as figurações enquanto todos as seguem.
A indumentária campesina, a refletir o caráter popular do ensejo.
E a harmonia dos participantes em torno do casamento fictício
encenado.
Na semana que
antecedeu ao arraial, a escola comunicou aos pais o horário dos
festejos. Os pequeninos da primeira série do fundamental
iniciariam a dança, seguidos sucessivamente pelos colegas dos anos
posteriores.
Como bom
pai coruja, levantei-me cedo, pois era grande a distância a ser
vencida entre minha casa e a escola. E na hora prevista, lá estava
eu a postos, sentado na arquibancada, máquina fotográfica em
punho, aguardando para registrar o desempenho dos meus filhos.
Foram duas
intermináveis horas de atraso, numa manhã fria de sábado, enquanto
crianças perdiam o ânimo, e os pais, a paciência. Então notei com
tristeza que aquela não era uma ocorrência pontual, mas um
comportamento repetitivo. Uma situação que se reprisa a cada aula
com um ou dois minutos a mais num dia, três ou quatro minutos a
menos em outro; a cada prazo estendido para a entrega de um
trabalho; a cada reunião de pais e mestres que carece de
pontualidade.
Diante desta
indisciplina, deste desrespeito ao uso do próprio tempo, bem como
do tempo alheio, nossos jovens são orientados. É por isso que
depois vemos vestibulandos desclassificados de concursos por
chegarem ao local de prova com portões fechados. Encontramos
advogados que perdem prazos para defesa ou contestação, vendedores
atrasados para importantes reuniões pré-agendadas, filas de espera
em clínicas médicas para consultas com hora marcada.
Educar não se resume a
prover alunos apenas de competências técnicas, aquelas vinculadas
à inteligência intelectual, embora seja isso que façamos
convencionalmente e nunca por inteiro.
Educar passa também pelo
desenvolvimento de competências comportamentais, aquelas atreladas
à inteligência emocional, o que envolve relacionamentos e
interação com o ambiente.
Mas educar demanda,
ainda, instruir os jovens na prática de competências valorativas,
tendo o respeito e a integridade como primordiais, numa lição que
se ensina de uma única maneira: através do exemplo.
Tom Coelho
Os filhos de hoje
Muito se fala das crianças de hoje
em dia, com relação à sua precocidade. Dizem: "Qualquer dia as
crianças vão nascer andando e falando". Geralmente isso se reporta
às diferenças entre as gerações, considerando que algumas funções
têm aparecido e se desenvolvido mais cedo, assim como a estatura
tem aumentado, provavelmente por uma alimentação diferenciada e
traços genéticos que se acentuaram.
Nos aspectos
sócio-culturais, as mudanças também vêm acontecendo de forma
acentuada, principalmente em virtude do progresso tecnológico.
Este trouxe diferentes hábitos ao cotidiano, com o uso cada vez
maior do computador em todas as atividades e, principalmente, no
acesso às informações. A velocidade com que estas chegam às nossas
mãos e a facilidade de consulta através da Internet trazem um
incrível dinamismo à vida moderna, fazendo com que tenhamos a
sensação de que o tempo está acelerado. Ou será que nós é que
estamos?
Os desafios profissionais
tornaram-se maiores e os pais trabalham cada vez mais, por
imposição do próprio mercado ou por vontade de oferecer mais
conforto aos filhos. Estes, por sua vez, preparando-se para um
futuro altamente competitivo, são submetidos a aulas de toda
natureza: esportes, línguas, instrumentos musicais, dança etc. Têm
agenda lotada como a de um adulto. Como e quando podem se
encontrar pais e filhos? Com que tempo? Com qual qualidade? Após
um dia intenso, estarão todos cansados, sem disponibilidade um
para o outro. Além disso, surgem obrigações domésticas para os
pais e lições de casa para os filhos.
Seria de se esperar
que os filhos, com toda a precocidade apontada no início desse
texto, dessem conta plenamente de tudo com facilidade. Pensamos:
"São jovens e não se cansam". Engano! Nós adultos superestimamos a
energia das crianças e desconsideramos a subjetividade, que tanto
influencia o desempenho. A mola propulsora de nossas ações são a
motivação, o interesse, enfim, o desejo. Sem este, nada acontece.
Poderíamos,
nesse momento, enveredar pela discussão das atividades dos filhos,
se estão de acordo com sua faixa etária, se são do agrado deles,
se foram escolhidas por eles, se são pertinentes às suas
habilidades, se atingem algum importante princípio da educação que
queremos oferecer a eles, mas não é essa a reflexão pretendida.
Portanto, retomemos nosso rumo.
Se os filhos
atuais são tão precoces, porque observamos nas escolas, nas
clínicas e mesmo em nossas casas, filhos tão imaturos,
dependentes, carentes de atenção e afeto? Aonde foram parar os
alunos curiosos, dedicados, estudiosos de antigamente? Vemos uma
inversão de valores, quando o anti-aluno - aquele que diz não
gostar de estudar, é indisciplinado e desafia o professor - é
valorizado e o aluno aplicado é ridicularizado pelos colegas,
muitas vezes sendo vítima de "bullying". O que se perdeu nesse
processo? Precisamos nós, educadores - e todos o somos, pais ou
professores - rever nossa atuação para descobrir o que aconteceu.
Educar dá
trabalho! Um trabalho que muitas vezes gratifica, quando vemos um
ótimo resultado, mas também desanima, quando os objetivos não são
atingidos. Entretanto, não podemos abrir mão desse nosso papel tão
importante. Somos nós, adultos, os orientadores dessa nova
geração, aqueles que vão mediar as relações dos jovens com esse
mundo maravilhoso, mas igualmente complexo, que aí está. Eles
precisam desses princípios norteadores para se sentir seguros,
confiantes e estimulados para enfrentar os desafios. A ausência de
parâmetros pode ser uma das causas da imaturidade e insegurança
dessa geração e isso nos leva a pensar que os próprios pais e
educadores também se sentem sem esses referenciais.
As
transformações muito rápidas do mundo moderno, que relatamos no
começo dessa reflexão, geraram impermanência nos valores e
indefinição dos objetivos que precisamos ou queremos alcançar.
Pais e professores sentem-se muitas vezes desorientados, não sabem
ou não conseguem educar; e, de outro lado, filhos e alunos que
indagam o que eles podem esperar dos adultos e o que se espera
deles próprios. Assim, os papéis não se estabelecem e os processos
de ensino-aprendizagem e educação-desenvolvimento não acontecem
como deveriam e precisariam, salvo gratificantes exceções.
Educar exige
abnegação, abrir mão do individualismo, tão presente hoje em dia.
O ciclo pais ausentes, filhos imaturos, adolescência prolongada,
entrada tardia no mercado de trabalho, priorização da carreira ao
invés dos relacionamentos amorosos - incluindo aí a família, leva
o indivíduo a priorizar a si mesmo e se fechar para o outro e,
conseqüentemente para as relações. O egocentrismo obscurece e
empobrece a visão de mundo. O culto ao hedonismo leva adultos e
jovens a buscar apenas o prazer, a não assumir responsabilidades,
a fugir dos seus papéis de pais e educadores, de um lado; e filhos
e alunos, de outro.
Podemos errar... Por nossas ações,
por aquilo que involuntariamente fazemos e até quando pensamos que
acertamos!
Não devemos
errar... Por nossa omissão, pelo que deixamos de fazer, pelo que
fingimos não ver!
A educação - não
apenas informativa, mas também formativa - precisa ser reconduzida
ao lugar que lhe compete, na família e na escola.
Silvia Amaral de Mello Pinto -
Pedagoga - Psicopedagoga - Coordenadora da Elipse - Clínica
Multidisciplinar - Membro Titular e Conselheira da ABPp -
Associação Brasileira de Psicopedagogia