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 Edição de Maio de 2008

 

O livro didático e suas possibilidades

 

Não é de hoje que os educadores das milhares de escolas que fazem parte das diferentes redes de ensino brasileiras, públicas ou privadas, debatem sobre a importância do uso do livro didático para uma boa aprendizagem dos alunos, sobretudo daqueles que freqüentam os anos mais avançados do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

     Durante a década de 80 e, talvez, até meados dos anos 90, a discussão que mobilizava os professores, principalmente na rede pública de ensino, era se o trabalho educacional e as relações de ensino e aprendizagem não ganhariam em qualidade se o livro didático fosse abolido das salas de aula.

     O livro didático seria o principal instrumento de produção de um tipo de aula incapaz de envolver o aluno com o conteúdo das diferentes disciplinas curriculares, matando, ao mesmo tempo, a capacidade de criação dos professores, convertidos a reprodutores e simplificadores de conhecimentos selecionados pelas editoras.

     Não se pode dizer que o uso de um ou outro material produz melhores resultados na aprendizagem dos alunos.

O livro didático ou a apostila são, a rigor, recursos que sistematizam informações, ordenando-as em função de uma seqüência que, ao menos hipoteticamente, melhor atenderiam as diferentes faixas etárias dos alunos e, ao mesmo tempo, tornariam menos complexas as estratégias de explicação por parte dos professores. Eles funcionam como guias, como materiais norteadores da prática docente, de modo a que este não se perca no turbilhão de acontecimentos que envolvem o cotidiano.

 

     A aprendizagem educacional é um processo complexo, que envolve fatores de ordem cultural, econômica, relacional e emocional que mesmo o melhor livro didático ou sistema apostilado, não serão capazes de contemplar sozinhos.

     De nada adianta ter um bom material didático se não houver investimento na formação dos professores. Os professores necessitam de um tempo dedicado ao estudo teórico, já que toda sua formação e sua cultura docente, nada mais fez que investir em um praticismo que o afastou fortemente do ato de pensar e de entender o principal sentido de seu fazer e de uma escola.

    O desprezo e a desvalorização do conhecimento teórico do professor foi, talvez, o fator determinante que levou educadores e escolas a fazerem escolhas de seus instrumentos de trabalho sem qualquer base ou justificativa valorativa, colocando-se, freqüentemente, à mercê das variações do mercado editorial ou das reformas educacionais. Não se trata, por fim, de demonizar este ou aquele material didático. Qualquer deles oferecem vantagens e desvantagens para o educador e para as escolas, mas não há material perfeito.

 

Edmilson de Castro

 

Fonoaudiólogo é fundamental no tratamento do disléxico

Profissional auxilia na associação entre o som e a escrita

 

A dislexia é um distúrbio de aprendizagem nas áreas de leitura, escrita e soletração, que afeta entre 5 a 10% da população escolar. Provocado por um conjunto de fatores genéticos e neurológicos, demanda atenção multidisciplinar. Entre os profissionais envolvidos no atendimento ao disléxico está o fonoaudiólogo. Ele é justamente a pessoa habilitada a trabalhar a dificuldade em associar os sons da fala, os fonemas, às letras correspondentes.

     Muitas vezes negligenciada ou confundida com preguiça, a dislexia vem recebendo destaque na história de Clarissa, personagem interpretada pela atriz Bárbara Borges na novela Duas Caras, da Rede Globo. Como todos os disléxicos da vida real, ela é inteligente, uma pessoa normal. Suas maiores dificuldades são ler e compreender um texto ou, ainda, transmitir seus conhecimentos por meio da escrita. Tanto é que foi aprovada no vestibular ao ser submetida a uma prova oral.

     “Para ler e escrever, é preciso saber pensar sobre a fala, dividir a fala em unidades menores e associar os fonemas às letras”, explica a fonoaudióloga Maria Thereza Mazorra, especialista em Linguagem, representante do Conselho Regional de Fonoaudiologia - 2a Região. “Às vezes, essa passagem é difícil”, continua ela.

    É nesse momento que entra em ação o fonoaudiólogo. “Ele estabelece estratégias para facilitar a leitura, para ajudar o indivíduo a associar o som à escrita”, conta a profissional. “E também estimula outras áreas, como a linguagem oral, para compensar o problema.”

 

Coça, coça cabecinha:

é piolho à vista!

 

 

Coçar a cabeça é um ato comum que pode ser indício de pediculose, mais conhecida como piolho. Uma doença provocada pela infestação do inseto de nome científico Pediculus humanus capitis e que se alimenta do sangue do couro cabeludo e provoca uma coceira intensa.

    Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o piolho aparece em cabelos higienizados e saudáveis de crianças ou adultos, independente da classe social. “Este inseto gosta de cabeça limpa, portanto, quem lava os fios diariamente também corre o risco de ser afetado pelo problema”, afirma o consultor técnico da Condor, Gennaro Preite.

    O piolho é um inseto que não tem asas e nem pernas adaptadas para o salto. A transmissão acontece pelo vento, já que o animal é leve e carregado pela corrente de ar. Outra forma de contagio é o contato direto – abraços e convivência em ambientes pequenos - por este motivo, ocorre à alta incidência em crianças em idade escolar, já que brincam juntos e compartilham os mesmos objetos, como escovas para cabelos.

     “Com base no Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), de 30 a 40% das crianças brasileiras estão infestadas com o inseto”, afirma Gennaro.

     O piolho se alimenta de sangue humano e vive entre 30 a 45 dias. Dependendo da espécie, a fêmea pode colocar até 300 ovos durante sua vida que são as famosas lêndeas.

Existem três variações de pediculoses:

 

1. Pediculose do Couro Cabeludo: provocada pela presença do “Pediculus humanus capitis e lêndeas presas nos fios de cabelo. Atinge preferencialmente crianças em fase escolar;

2. Pediculose do Corpo: tem como causador o “Pediculus humanus corporis (conhecido como muquirana) e lêndeas que são depositadas nos pêlos e roupas dos indivíduos;

3. Pediculose Pubiana: causado pelo “Phthirus púbis” (vulgarmente chamado de chato) e lêndeas que se instalam nos pêlos pubianos.

    Para o tipo mais comum da doença, a capilar, o mais indicado é utilizar a “receita da vovó”: o velho e bom pente fino. Higienizar os fios com o shampoo de costume ou os indicados para o problema, vendidos em farmácias, e passar, durante o banho e várias vezes ao dia, o pente nos cabelos.

     O consultor da Condor afirma que o ato de pentear com este modelo de utensílio faz com que o inseto saia da cabeça.

     Vale ressaltar que o uso do medicamento só é recomendado com a prescrição médica. Utilizar, também, de panos úmidos com inseticidas é terminantemente proibido. Muito comum no passado, principalmente no interior do Brasil, esta forma de acabar com o problema é extremamente prejudicial à saúde de quem o aplica ou recebe.

     Esse produto nada mais é que veneno e não faz nenhum efeito sobre a lêndea, porém pode provocar lesões no couro cabeludo. Vale ressaltar que o inseticida não é recomendado nem em animais, apenas com o objetivo de eliminar e/ou espantar mosquitos, baratas e ratos.

 

Dicas: quando a criança tem algum destes sinais, é piolho à vista!

- Feridas na cabeça decorrentes do ato de coçar;
- Piolho ou lêndeas nas sobrancelhas e nos cílios;
- Marcas vermelhas de picadas;
- Gânglios inchados no pescoço (íngua).

 

 

Gennaro Preite


Transtorno de Déficit de Atenção /Hiperatividade atinge cerca de 7 - 10% da População Mundial

 

O que é TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade ou mais conhecido como DDA-Distúrbio de Déficit de Atenção? Crianças que freqüentemente não prestam atenção a detalhes ou cometem erros por omissão em atividades escolares, de trabalho ou outras; com freqüência não parece ouvir quando lhe dirigem a palavra, não seguem instruções, não terminam os deveres escolares; agitam as mãos e os pés ou se remexem na cadeira; não param sentados; correm ou escalam demasiadamente, parecem estar a mil por hora e falam em demasia; respondem de forma precipitada e não conseguem aguardar sua vez.

     Segundo o Prof. Gildo Angelotti, diretor clínico do Instituto de Neurociência e Comportamento de São Paulo, é possível identificar o transtorno após os quatro anos de idade, mas confirma-se com mais precisão, na idade escolar, pois antes desta faixa etária, os pais notam apenas uma certa agitação psicomotora, dificuldade para dormir e o que chamamos de hiperfoco: algo lúdico, p.ex:, Videogame. 

     Geralmente, são os professores com a ajuda dos pais que notam as primeiras características de uma criança distraída e ao mesmo tempo agitada, porém muitos professores, não fazem idéia do que aconteça com aquela criança. Na primeira reunião de pais e mestres, a bomba. "Seu filho é muito agitado, e anda atrapalhando o andamento das aulas".  

     Alguns pais ficam revoltados com a conduta do professor, outros acham que faz parte do desenvolvimento, pois "comigo foi igual e depois tudo mudou". "Faz parte do crescimento".

     O TDAH atinge cerca de 7-10% da população mundial. No Brasil não é diferente. Não está relacionado com a cultura, nem com classe social. É Neurobiológico.

     "É como se fosse um fio partido dentro do cérebro. Uma região não consegue entrar em contato com a outra. Isso causa danos profundos na vida da pessoa, se não tratada". Comenta o Prof.Angelotti.

    Hoje, a doença é mais conhecida, tanto no meio médico quanto no psicológico. Inúmeras pesquisas foram feitas e são realizadas em busca de melhores benefícios para a vida do paciente.

   Os medicamentos mais utilizados são os psicoestimulantes e os antidepressivos, como segunda escolha, ou seja, para aqueles que tem dificuldade de se adaptar ao remédio, ou mesmo para os que não apresentam boa resposta à medicação.

 

 

     O uso indiscriminado de psicoestimulantes chama atenção à classe médica, pois a prescrição deve ser fornecida com base na certeza do diagnóstico.

     Pessoalmente, Gildo acredita que uma criança, apesar da confirmação diagnóstica ser após os quatro anos de idade, apresenta suas ressalvas quanto à idade e a fase de desenvolvimento que a criança se encontra. "Não podemos esquecer que ela está em plena fase de desenvolvimento e pode apresentar comportamentos muito parecidos e não se caracterizar como tal", acrescenta o professor.

     Na verdade, de acordo com inúmeras pesquisas, que sem o psicoestimulante nada se altera. Algumas ao longo da adolescência e fase adulta perdem um pouco destas características, mas outras mantêm e perdem muito em qualidade de vida.

     Quanto mais cedo for diagnosticado, melhor para a criança e para aqueles que convivem com ela. O diagnóstico tardio prejudica o avanço da criança na escola, nos relacionamentos e na probabilidade de ganhar mais um probleminha: as comorbidades. Drogas lícitas e ilícitas, aumento da ansiedade, problemas relacionados ao humor, conduta agressiva, etc.

     Atualmente, o mais indicado é a Psicoterapia de base Cognitivo-Comportamental e o tratamento medicamentoso em paralelo. A Psicoterapia irá ajudar a criança, adolescente ou mesmo o adulto, a discriminar comportamentos inadequados, pensamentos considerados tóxicos ou irracionais, que fazem com que se sintam "inúteis", "incompreendidos" ou aprender a lidar com a própria frustração.

 

Prof. Gildo Angelotti



Mochila escolar: saiba calcular o peso que seu filho pode carregar

 

Todo ano é a mesma coisa. Uma lista extensa de materiais escolares transforma a mochila de crianças e adolescentes em um verdadeiro inimigo da saúde. Segundo a fisioterapeuta Sandra de Farias, do Instituto Patrícia Lacombe, com sede em Campinas, carregar um peso maior do que o adequado aumenta consideravelmente a pressão sobre os discos intervertebrais, que funcionam como amortecedores da coluna. “O excesso sobre os discos pode reduzir o espaço entre as vértebras, comprimindo raízes nervosas e ocasionando, até mesmo, as temidas hérnias de disco”, destaca.

     É fácil saber se a carga é excessiva: o aluno deve transportar, no máximo, 10% de seu peso corporal. A escolha da mochila também é assunto sério. “É melhor optar por peças que vêm com amortecedores para a região dorsal e cinto, para mantê-las bem junto ao corpo. Alças acolchoadas também ajudam a amortecer a pressão sobre os ombros”, orienta. Outra dica é evitar aquelas que têm muitos detalhes - como bolsos e enfeites – porque eles aumentam o peso final.

     A forma de carregar a mochila é um capítulo à parte. “Ela deve ser sempre distribuída nos dois ombros e não de um só lado. No caso daquelas que têm rodinhas, é importante escolher uma peça com puxador adequado para a altura da criança e orientá-la a alterna o braço que puxa, para evitar risco de escoliose e outros prejuízos para a coluna”, descreve.

     A fisioterapeuta Karina Alonso lembra ainda a importância de observar cuidadosamente a postura dos filhos no dia-a-dia. “A atenção deve ser redobrada quando há diferença na altura dos ombros, quando há projeção de ombros para frente ou quando a curvatura atrás da cintura aumenta. Outro aspecto importante é verificar se, quando dorme, a criança respira pela boca, pois isso também facilita o desenvolvimento de algumas alterações posturais, entre outros problemas de saúde”, esclarece.
    Grande parte dos problemas de coluna começam a ser construídos na infância. Cuidados essenciais com os hábitos posturais podem ser a garantia de não entrar para estatísticas cada vez mais assustadoras. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% da população sofrem ou sofrerão de dor lombar em um período da vida. E mais: 90% experimentarão situações de afastamento do trabalho e das atividades de rotina por conta da má postura. “A boa notícia é que 94% dos casos podem ser evitados. E a atenção na infância é o primeiro passo”, enfatiza Dra. Sandra.

 

Carla Furtado e Paulo Roberto Lima

Editoria de Saúde



Saiba como funciona uma "escola sustentável"

 

Um dos assuntos de maior destaque na imprensa nacional e internacional nos últimos tempos é, sem dúvida, a problemática ambiental. O tema vem ganhando, ano a ano, mais espaço na vida das pessoas, que se mostram cada vez mais dispostas a fazer a sua parte nessa história, mudando seu estilo de vida e o seu comportamento.

     A pauta está também na ordem do dia das instituições de ensino que, por meio de seus projetos e ações, transformam a preocupação com a questão ambiental em cultura escolar. “A escola tem uma importância ímpar no trabalho de conscientização daqueles que viverão um futuro com muitas dificuldades, caso o panorama atual e as perspectivas previstas por estudiosos ambientais se confirmem”, adverte Débora Regina Pires Moreira, coordenadora de projetos da Agenda 21 da escola Stance Dual, em São Paulo. Agenda 21 é um documento que surgiu a partir da Conferência Mundial ocorrida em 1992, no Rio de Janeiro, ECO-92, cujo objetivo é formular políticas que respeitem o meio ambiente, o homem e a sua interação, sempre sob a perspectiva da sustentabilidade.  

     Nessa escola, a questão ambiental é tratada como tema transversal e faz parte do currículo. Segundo a coordenadora, o foco de trabalho passa por questões relacionadas aos elementos físicos e biológicos e ao modo como o homem interage com a natureza. Vale destacar que tal conteúdo não se detém apenas às ciências, mas percorre em espiral diversas áreas do conhecimento. “Nosso compromisso está na construção do conhecimento com base nos conceitos científicos. Além disso, nossa meta é trabalhar com a formação de valores e atitudes, formando cidadãos conscientes e comprometidos. Os alunos devem ser multiplicadores capazes de atuar além dos muros da escola”, acrescenta.

 

     Para que a Agenda 21 possa alcançar seus propósitos é necessário desdobrá-la em agendas regionais, nacionais e locais. A Stance Dual é a primeira escola particular de São Paulo a possuir sua própria Agenda 21 interna desde 2000, com várias ações caracterizadas em campanhas organizadas com o apoio da comunidade: substituição das toalhas de papel por toalhas de pano e de copos plásticos por canecas e garrafinhas squeeze; implantação da coleta seletiva de lixo na escola, na Praça Contos Fluminenses e Creche Aconchego; Recicloteca (oficina permanente de reciclagem e produção artesanal); coleta de tampinhas plásticas flexíveis para doação à Associação Dorina Nowil; coleta de óleo de cozinha em parceria com a ONG Trevo para a produção de produtos de limpeza doados à creche; produção de adubo na composteira, etc.

     Em 2008, a idéia é fazer a manutenção das campanhas iniciadas há sete anos, além de novas ações que serão desenvolvidas de acordo com o currículo de cada série, como o monitoramento da qualidade da água do rio Tietê pelos alunos de 5º ano, em parceria com a SOS Mata Atlântica.

     Para saber mais sobre os projetos da Stance Dual acesse www.stance.com.br


A dura realidade do

estudante do período noturno

 

 

A rotina diária de levantar cedo, trabalhar o dia todo, e enfrentar as dificuldades de trânsito e transporte faz parte da realidade de dezenas de milhões de brasileiros. Entretanto, para 2,7 milhões, esse hábito é seguido de atividades estudantis no período noturno, alimentação inadequada e um percurso de volta ao lar marcado pela insegurança.     

     Acresça-se ao cenário uma reduzida quantidade de horas de sono, pouco lazer e a própria legislação trabalhista, que não oferece flexibilização de horário de trabalho para o estudante-trabalhador e não propicia benefício-alimentação adicional que assegure uma refeição antes das aulas, uma vez que a locomoção é feita diretamente do local de trabalho para a instituição de ensino.

    Essa foi a constatação de uma tese desenvolvida sobre o impacto do “entorno educacional” no cotidiano do estudante do ensino superior noturno, a qual pesquisou 340 estudantes da cidade de São Paulo e de dois municípios do interior paulista, um da região de Campinas e outro de Araçatuba.

     O ensino superior noturno é recente no Brasil – tem menos de 50 anos de existência. No entanto, possui alta representatividade numérica e mostra-se crescente: totaliza 60% do total de matrículas do país e 70% do Estado de São Paulo. Ao longo dos últimos anos, transformou-se em instrumento de inclusão social, pois nele o jovem busca sua formação profissional, enquanto o trabalho remunerado durante o dia oferece-lhe subsídios financeiros para viabilizar os estudos.

Os pesquisados reclamam das aulas expositivas não-dialogadas, com baixa interatividade, pouca utilização de recursos tecnológicos que estimulem sua participação, causando desinteresse, apatia e sono.

     Na Capital, o trânsito e o trabalho depois do expediente normal são fatores que causam atrasos, perda de aulas e provas. No interior do Estado, o longo trajeto em estradas é outro fator dificultador, porque, muitas vezes, o curso desejado não é oferecido na cidade do estudante. O que há em comum para os estudantes das cidades pesquisadas é a presença da violência após o encerramento das aulas, quando estes ficam expostos aos riscos da noite, período de maior índice de delitos.

   Os pesquisados (86% são estudantes-trabalhadores) alegam que os atrasos na chegada à instituição os impedem de realizar pesquisas antes da aula ou mesmo freqüentar bibliotecas, diminuem o convívio social e impedem que se alimentem. As dificuldades atingem de forma indiscriminada estudantes de todos os níveis sócio-econômicos.

Passando ao largo pelo protecionismo ou assistencialismo, destaca-se que a instituição de ensino e o “extramuros” não reconhecem essas dificuldades. A instituição deveria disponibilizar infra-estrutura (biblioteca, secretaria, laboratórios) em horários depois das aulas, bem como ter seu projeto pedagógico compatível com a realidade do aluno do noturno, e oferecer recursos tecnológicos e capacitação ao corpo docente, possibilitando o desenvolvimento de conteúdos atualizados. Também deveria buscar integração com empresas de transportes para compatibilizar horários e demandas.

Nessa mesma linha, as prefeituras deveriam criar e manter faixas de travessia de pedestres, iluminar as áreas próximas às instituições, organizar o fluxo de veículos na chegada e saída dos estudantes. Já a Secretaria de Segurança Pública poderia ter um contingente repressivo maior no período noturno (entre 22 horas e meia-noite), horário de maior circulação de estudantes, e estender a realização de rondas escolares às instituições de ensino superior. Adicionalmente, os empresários, em meses letivos, poderiam flexibilizar o horário de trabalho e ampliar o valor do benefício-alimentação para tais estudantes.

     Muito se fala sobre a importância da Educação na formação de um país, de seu povo e, sobretudo, das conseqüências da melhoria na qualidade de vida. Na atualidade, falar em Educação como prioridade transformou-se em discurso politicamente correto de intelectuais, empresários e políticos. Essa é a hora de dar um basta na expectativa de que “o outro” faça algo, pois a Educação clama por ações imediatas tanto do extramuros como do intramuros das instituições de ensino. Ações que sejam integradas, sincronizadas e amparadas por planos e políticas públicas; que se sobreponham a cores partidárias, tendo um real compromisso com a sociedade e a formação do povo brasileiro.

Armando Terribili Filho


Letra feia pode ser distúrbio de aprendizagem

 

A Disgrafia (dis=dificuldade e grafia=grafar/escrever) é um transtorno da escrita resultante de um distúrbio de integração visual-motora, que afeta a capacidade de escrever ou copiar letras, palavras e números. Trata-se de um transtorno funcional e apresenta-se em crianças com capacidade intelectual normal, sem transtornos neurológicos, sensoriais, motores e/ou afetivos que justifiquem tal dificuldade.

     Apesar de alguns autores terem visões diferentes quanto ao termo disgrafia e disortografia, abordaremos a disgrafia como sendo um prejuízo que o indivíduo possui na execução do ato motor destinado à escrita e não das trocas, omissões, inversões e contaminações de letras/palavras, que seriam características da disortografia.

     De modo geral, a escrita é uma linguagem visual expressiva, que faz uso de uma série de operações cognitivas, tais como percepção auditiva, visual, discriminação tátil, cinestésica. Ou seja, é um sistema visual simbólico, que converte pensamento, sentimento e idéias em símbolos gráficos, que envolve análise de todos estes subsistemas.

     Para o desenvolvimento da escrita adequada, existem alguns pré-requisitos, como aspectos cognitivos, afetivo, motor e linguagem que são necessários observar:

 

- Esquema corporal (planta do indivíduo) é a organização das sensações relativas ao seu próprio corpo em relação ao mundo exterior;

- Lateralidade (dominância=força e precisão) conceito de direita e esquerda será mais fácil de ser interiorizado a medida que sua dominância  for mais homogênea;

- Estruturação espacial: o indivíduo deve ser capaz de situar-se e situar objetos uns em relação aos outros;

- Orientação temporal: envolve a capacidade de situar-se em função da sucessão dos acontecimentos (antes, após, durante), duração dos intervalos, noções de tempo longo e curto (hora, minuto), ritmo regular, irregular (aceleração, freada);

- Pré-escrita: domínio do gesto e da direção gráfica (da esquerda para direita).

     Quando realizamos uma avaliação psicomotora, observamos algumas características que podem auxiliar no diagnóstico, e que diferenciam os subtipos de disgrafia: Pura (inconsciente): quadro disgráfico em crianças com conflitos emocionais importantes, que usam a escrita para chamar a atenção pela “letra defeituosa”.

Conflito emocional importante:

escrita instável, com proporções inadequadas;

deficiente espaçamento e inclinações

 

Mista: apresenta conflitos emocionais associados à déficits  perceptivo-motor (tipo de disgrafia mais freqüente):

 

- dificuldade na forma, tamanho da letra;

- inclinação defeituosa (inicia uma frase no canto superior esquerdo e acaba no canto inferior direito);

- deficiente espaçamento entre letras, margens;

- ligamento defeituoso entre letras da palavra;

- não direciona o giro da escrita;

- pressão do lápis ou caneta na escrita ou falta desta;

- rasuras;

- transtorno de ritmo;

- alteração de postura;

- letra ininteligível

- lentidão;

- alteração dos fatores psicomotores;

- impulsividade;

- transtorno da atenção;

- transtorno do esquema corporal;

 

    Reativas: devido a transtorno maturativo, pedagógico ou neurológico.

Inicialmente não possuem componentes de alteração emocional.

    Há ainda a Disgrafia caligráfica ou motora, que ocorre alteração na forma das letras e na qualidade da escrita em seus aspectos percepto-motores. Em crianças menores, podemos observar dificuldades motoras de ritmo. Porém, somente após a alfabetização pode ser feito o diagnóstico. Para tanto é fundamental uma avaliação com profissional especializado na área.

     Os exercícios de pré-escrita e grafismo são necessários para aprendizagem das letras e números. Sua finalidade é fazer com que a criança atinja o domínio do gesto e do instrumento, a percepção e a compreensão da imagem a reproduzir.

     É importante que o indivíduo seja estimulado a realizar exercícios para o ombro, como movimentos de abrir e fechar com o brinquedo vai e vem e bolas; cotovelo (peteca), punho, mão e dedos. Estes exercícios poderão ser feitos utilizando técnicas de percepção corporal, como por exemplo relaxamento, massagens, prancha de equilíbrio e com a utilização de alguns materiais (argila, massinha, tinta , jogos).

     A seguir exercícios de grafismo para professores trabalharem em sala de aula:

     Gestos no plano vertical (utilizando lousa, papel, pincéis, giz de cera e canetas hidrocor) para aprender a segurar corretamente o lápis;

     Grandes desenhos que vão diminuindo a medida que a criança desenvolve habilidade de ombro, cotovelo e passa a adquirir destreza de punho e dedos;

     O trabalho deve ser realizado sempre da esquerda para a direita.

 

Raquel Caruso


Para que professores não precisem ser legendados (ou a Síndrome de Camões)

                    

Camões em os Lusíadas foi traduzido para todas as línguas, sem exceção, inclusive para a própria Língua Portuguesa; compôs sob a égide do Latim, com a sintaxe da Língua Latina, com um léxico extremamente erudito e, evidentemente, sem as notas de rodapé explicativas, seja da sintaxe, da estilística ou das citações mitológicas, como nas edições mais modernas. Portanto, dado o estágio do contexto sociocultural português no século XVI, ninguém na sua época o deve ter entendido e sequer, lido: os níveis de linguagem, os repertórios de autor e leitor eram, continuam a ser e sempre serão muito diferentes.

    Tenho certeza de que nós professores, especialmente os universitários, muitas vezes, vemo-nos tomados pela Síndrome de Camões, ou seja: sentimos necessidade de tradutores, temos a nítida sensação de que nossos alunos não nos conseguem entender.

     Nas Faculdades Integradas Rio Branco tenho a possibilidade de trabalhar com deficientes auditivos que me “escutam” por meio do intérprete de Libras (Língua de Sinais Brasileira) e penso: como seria bom ser interpretada/ traduzida/ legendada para que todos pudessem, não apenas escutar, mas ouvir e daí entender, relacionar, comparar, analisar,  julgar, criticar, conceituar, deduzir, generalizar, discutir, explicar ... enfim, fazer parte desse processo dialógico que é o verdadeiro aprendizado.

     Nós passamos pelas transformações tecnológicas, eles estão totalmente engajados nelas. São homólogos ao computador, alimentados pela informação, não vêem necessidade de entender os mecanismos mais profundos das linguagens, sua articulação sintática; conseguem da informação tirar algum sentido e o nível semântico reduz-se às primeiras camadas de qualquer tipo de texto. Dominam a instantaneidade, a simultaneidade de mensagens e esbarram na linearidade da palavra, do código verbal oral ou escrito, na fala humana a que Hjelmslev denominou “o título de nobreza da humanidade”.

     Nobres e plebeus temos que nos entender. O verdadeiro professor, aquele que professa, que põe fé em sua função e em seus alunos, tem que recuperar o velho construtivismo socrático de fustigar e conduzir o aluno pela construção de seu próprio conhecimento. Certo é que Sócrates, além de professar, tinha um método e a habilidade de fazer as pessoas se expressarem, mesmo quando as idéias não estavam ainda bem claras e formuladas. A clareza, a claridade, a luz vinham do diálogo.

 

 

 

 

     Como, então, dialogar com nossos alunos sem necessidade de sermos legendados? Acredito que iniciando a “conversa” com as ferramentas que eles dominam e que lhes desperta interesse. Por que não os podemos conduzir do hipertexto à magia de textos escritos que sedimentam e garantem a integralidade da comunicação? Por que não os podemos fazer mergulhar nas camadas de uma escrita bem articulado e no prazer de dominar o tempo da leitura e, assim, se poder conceder o espaço necessário para assimilar a informação no simples ato de ler e reler? É um procedimento encantatório, sem dúvida nenhuma, um jogo de sedução, que uma vez vencido não se consegue abandonar.

    Tenho experimentado de tudo, ensinado metodologia partindo de textos como Citizen X (filme de Jeffrey DeMunn - Cidadão X), Matrix ou Beleza Americana, análise sintática tendo como referente quadros de Picasso ou o Bolero de Ravel e dialogando, sempre procurando dialogar não só com os alunos como também com colegas das mais diversas áreas. Resultado: troca de experiência, atividades conjuntas, material abundante e rico e, o mais desejado,  a atenção do aluno

     É mais demorado? Sem dúvida. É mais trabalhoso? Evidente. Mas todos sabemos que vale a pena.

     Professores: conheçamos nossos alunos, descubramos seus interesses, transmitamo-lhes segurança, liberdade e capacidade de expressão. Tenhamos a certeza de dialogar.

     E...continuemos a professar!

 

Virgínia Maria Antunes de Jesus

 

 

Quatro passos para a educação que queremos

 

Mais de 40% dos jovens de 18 a 29 anos que vivem nas cidades de Alagoas e da Paraíba são analfabetos ou cursaram apenas parte do ensino fundamental. Em outros 11 estados do país, essa porcentagem é superior a 30% e em nove supera 20%, ficando abaixo desse último percentual em apenas quatro: Paraná (18%), Amapá (17%), Santa Catarina (16%) e São Paulo (15%), além do Distrito Federal (17%).

     Os dados são de fonte oficial, a Secretaria Geral da Presidência da República, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, do IBGE, e mostram que o país está longe, muito longe de ter uma situação educacional que possibilite assegurar um desenvolvimento sustentado, com um futuro melhor para a parcela mais carente da população.

     O Instituto PNBE de Desenvolvimento Social realizou um levantamento em cidades que apresentaram melhorias na educação nos últimos anos, segundo os métodos oficiais de avaliação. A partir daí organizou um workshop com especialistas, professores e estudantes da periferia, que identificou caminhos para superar a atual situação e possibilitar que cheguemos a 2022 com todos (ou quase todos) os jovens dessa faixa etária com pelo menos 12 anos de escolaridade eficaz, como propõe o Projeto Brasil 2022 – Do País que Temos ao País que Queremos, lançado pelo PNBE Pensamento Nacional das Bases Empresariais em 2003. Nesse workshop foram duas as principais reclamações dos estudantes da periferia, comprovando as pesquisas sobre o abandono dos estudos: a má condição física das escolas, e o ensino desinteressante.

     O primeiro passo para a mudança é definir claramente que a responsabilidade pelo ensino infantil e fundamental é do município – hoje menos de 30% dos municípios assumem essa função, enquanto os outros 70% dividem-na com o estado ou deixam por conta deste. Recursos estaduais e federais são vistos como dinheiro de ninguém, levando a desperdício e mau uso.

     Um segundo passo é envolver a comunidade no processo educacional – o trabalho do Instituto PNBE mostra que, quando isso acontece, a situação se transforma. Esse envolvimento passa pela descentralização, maior transparência no uso de recursos, maior delegação de decisões às Associações de Pais e Mestres, e outras iniciativas. Uma competição entre escolas públicas do município, com premiação e reconhecimento das que tiverem melhor desempenho - no ensino, em música, artes, etc. envolve a comunidade na manutenção e permanente melhoria das unidades, reduzindo a também a degradação que é um problema sério em muitos locais.

     Um terceiro passo é melhorar a gestão, com dois diretores em cada escola – um da área pedagógica e outro de administração, contratados a partir de concurso público. Eles escolhem sua escola, com base à suas notas, como ocorre em judiciários estaduais e sistemas escolares de alguns estados. Periodicamente eles devem ser avaliados pelo poder público e pela comunidade, sendo substituídos se o desempenho não for adequado.

     O quarto passo é melhorar o conteúdo, que precisa ser estimulante e bem apresentado. O Governo Federal deve definir apenas o que é básico para todas as escolas, o Governo Estadual complementa com especificidades regionais e o município ajusta o ensino às condições locais. Em vários municípios isso vem sendo feito com sucesso, reforçando a visão do agronegócio e outros aspectos da realidade local. Os professores necessitam também de novo tipo de formação e de reciclagem permanente, quanto ao conteúdo e à forma. Um professor bem treinado e informado, que facilita a participação, mantém a atenção de uma turma de 25, 30 ou mais alunos, enquanto quem transmite mecanicamente o conteúdo não mobiliza o interesse pela aprendizagem, mesmo com poucos estudantes na sala.

     Na área financeira, o Governo Federal deve equalizar os salários dos professores, como propõe o PDE Plano de Desenvolvimento da Educação, além de pagar a bolsa-estudante ou bolsa aprendiz para evitar que o aluno fuja da escola por razões econômicas. Ao Governo Estadual cabe complementar os recursos e cuidar do treinamento de professores. A responsabilidade principal é do município, aí incluídos além da Prefeitura, as entidades da sociedade civil, que devem fiscalizar o uso dos recursos e a eficácia do ensino, e a comunidade que precisa cobrar. Como dizia o falecido governador André Franco Montoro, “o que pode ser feito pelo município não deve ser feito pelo estado e o que pode ser feito pelo estado não deve ser feito pelo governo federal” – o que vale em outros países grandes também na área educacional.

 

Mario Ernesto Humberg


Educar não se resume a prover alunos apenas de competências técnicas, mas também de competências comportamentais e valorativas, tendo o respeito e a integridade como primordiais, numa lição que se ensina de uma única maneira: através do exemplo.

 

Administração do Tempo se Aprende na Escola

 

“Educa a criança no caminho em que deve andar;

e até quando envelhecer não se desviará dele.”

(Provérbios 22:6)

 

    A primeira vez que me coloquei a refletir sobre o tema foi durante as chamadas “festas juninas”. A escola organizou, como de costume, uma cerimônia daquelas, com direito a barracas, jogos, comes e bebes.

    A comemoração, originária da tradição pagã de celebrar o solstício de verão, deve ter chegado às escolas com intuito de confraternização. Depois é que descobriram que o evento poderia funcionar também como um grande reforço do caixa. Alunos criam toda a decoração, pais oferecem as prendas e ambos trabalham na organização, enquanto convidados compram convites e pagam pelos dotes.

    O ponto alto de uma quermesse atende pelo nome de quadrilha. Bons tempos em que isso representava alegria e pureza... Creio que logo virá de Brasília uma Medida Provisória exigindo exclusividade no uso do termo!

    Mas o fato é que por trás da dança folclórica há toda uma simbologia. A evolução ritmada praticada pelos casais. As coreografias desfiladas com entusiasmo. O cavalheirismo dos jovens a servir as damas, tirando-lhes o chapéu, conduzindo-as com altivez. O respeito ao mestre “marcador” que dita as figurações enquanto todos as seguem. A indumentária campesina, a refletir o caráter popular do ensejo. E a harmonia dos participantes em torno do casamento fictício encenado.

    Na semana que antecedeu ao arraial, a escola comunicou aos pais o horário dos festejos. Os pequeninos da primeira série do fundamental iniciariam a dança, seguidos sucessivamente pelos colegas dos anos posteriores.

     Como bom pai coruja, levantei-me cedo, pois era grande a distância a ser vencida entre minha casa e a escola. E na hora prevista, lá estava eu a postos, sentado na arquibancada, máquina fotográfica em punho, aguardando para registrar o desempenho dos meus filhos.

 

 

  

    Foram duas intermináveis horas de atraso, numa manhã fria de sábado, enquanto crianças perdiam o ânimo, e os pais, a paciência. Então notei com tristeza que aquela não era uma ocorrência pontual, mas um comportamento repetitivo. Uma situação que se reprisa a cada aula com um ou dois minutos a mais num dia, três ou quatro minutos a menos em outro; a cada prazo estendido para a entrega de um trabalho; a cada reunião de pais e mestres que carece de pontualidade.

    Diante desta indisciplina, deste desrespeito ao uso do próprio tempo, bem como do tempo alheio, nossos jovens são orientados. É por isso que depois vemos vestibulandos desclassificados de concursos por chegarem ao local de prova com portões fechados. Encontramos advogados que perdem prazos para defesa ou contestação, vendedores atrasados para importantes reuniões pré-agendadas, filas de espera em clínicas médicas para consultas com hora marcada.

   Educar não se resume a prover alunos apenas de competências técnicas, aquelas vinculadas à inteligência intelectual, embora seja isso que façamos convencionalmente e nunca por inteiro.

Educar passa também pelo desenvolvimento de competências comportamentais, aquelas atreladas à inteligência emocional, o que envolve relacionamentos e interação com o ambiente.

   Mas educar demanda, ainda, instruir os jovens na prática de competências valorativas, tendo o respeito e a integridade como primordiais, numa lição que se ensina de uma única maneira: através do exemplo.

 Tom Coelho


Os filhos de hoje

 

Muito se fala das crianças de hoje em dia, com relação à sua precocidade. Dizem: "Qualquer dia as crianças vão nascer andando e falando". Geralmente isso se reporta às diferenças entre as gerações, considerando que algumas funções têm aparecido e se desenvolvido mais cedo, assim como a estatura tem aumentado, provavelmente por uma alimentação diferenciada e traços genéticos que se acentuaram.

     Nos aspectos sócio-culturais, as mudanças também vêm acontecendo de forma acentuada, principalmente em virtude do progresso tecnológico. Este trouxe diferentes hábitos ao cotidiano, com o uso cada vez maior do computador em todas as atividades e, principalmente, no acesso às informações. A velocidade com que estas chegam às nossas mãos e a facilidade de consulta através da Internet trazem um incrível dinamismo à vida moderna, fazendo com que tenhamos a sensação de que o tempo está acelerado. Ou será que nós é que estamos?

   Os desafios profissionais tornaram-se maiores e os pais trabalham cada vez mais, por imposição do próprio mercado ou por vontade de oferecer mais conforto aos filhos.  Estes, por sua vez, preparando-se para um futuro altamente competitivo, são submetidos a aulas de toda natureza: esportes, línguas, instrumentos musicais, dança etc. Têm agenda lotada como a de um adulto. Como e quando podem se encontrar pais e filhos? Com que tempo? Com qual qualidade? Após um dia intenso, estarão todos cansados, sem disponibilidade um para o outro. Além disso, surgem obrigações domésticas para os pais e lições de casa para os filhos.

    Seria de se esperar que os filhos, com toda a precocidade apontada no início desse texto, dessem conta plenamente de tudo com facilidade. Pensamos: "São jovens e não se cansam". Engano! Nós adultos superestimamos a energia das crianças e desconsideramos a subjetividade, que tanto influencia o desempenho. A mola propulsora de nossas ações são a motivação, o interesse, enfim, o desejo. Sem este, nada acontece.

     Poderíamos, nesse momento, enveredar pela discussão das atividades dos filhos, se estão de acordo com sua faixa etária, se são do agrado deles, se foram escolhidas por eles, se são pertinentes às suas habilidades, se atingem algum importante princípio da educação que queremos oferecer a eles, mas não é essa a reflexão pretendida. Portanto, retomemos nosso rumo.

     Se os filhos atuais são tão precoces, porque observamos nas escolas, nas clínicas e mesmo em nossas casas, filhos tão imaturos, dependentes, carentes de atenção e afeto? Aonde foram parar os alunos curiosos, dedicados, estudiosos de antigamente? Vemos uma inversão de valores, quando o anti-aluno - aquele que diz não gostar de estudar, é indisciplinado e  desafia o professor - é valorizado e o aluno aplicado é  ridicularizado pelos colegas, muitas vezes sendo vítima de "bullying". O que se perdeu nesse processo? Precisamos nós, educadores - e todos o somos, pais ou professores - rever nossa atuação para descobrir o que aconteceu.

     Educar dá trabalho! Um trabalho que muitas vezes gratifica, quando vemos um ótimo resultado, mas também desanima, quando os objetivos não são atingidos. Entretanto, não podemos abrir mão desse nosso papel tão importante. Somos nós, adultos, os orientadores dessa nova geração, aqueles que vão mediar as relações dos jovens com esse mundo maravilhoso, mas igualmente complexo, que aí está. Eles precisam desses princípios norteadores para se sentir seguros, confiantes e estimulados para enfrentar os desafios. A ausência de parâmetros pode ser uma das causas da imaturidade e insegurança dessa geração e isso nos leva a pensar que os próprios pais e educadores também se sentem sem esses referenciais.

     As transformações muito rápidas do mundo moderno, que relatamos no começo dessa reflexão, geraram impermanência nos valores e indefinição dos objetivos que precisamos ou queremos alcançar. Pais e professores sentem-se muitas vezes desorientados, não sabem ou não conseguem educar; e, de outro lado, filhos e alunos que indagam o que eles podem esperar dos adultos e o que se espera deles próprios. Assim, os papéis não se estabelecem e os processos de ensino-aprendizagem e educação-desenvolvimento não acontecem como deveriam e precisariam, salvo gratificantes exceções.

     Educar exige abnegação, abrir mão do individualismo, tão presente hoje em dia. O ciclo pais ausentes, filhos imaturos, adolescência prolongada, entrada tardia no mercado de trabalho, priorização da carreira ao invés dos relacionamentos amorosos - incluindo aí a família, leva o indivíduo a priorizar a si mesmo e se fechar para o outro e, conseqüentemente para as relações. O egocentrismo obscurece e empobrece a visão de mundo. O culto ao hedonismo leva adultos e jovens a buscar apenas o prazer, a não assumir responsabilidades, a fugir dos seus papéis de pais e educadores, de um lado; e filhos e alunos, de outro.

 Podemos errar... Por nossas ações, por aquilo que involuntariamente fazemos e até quando pensamos que acertamos!

     Não devemos errar... Por nossa omissão, pelo que deixamos de fazer, pelo que fingimos não ver!

     A educação - não apenas informativa, mas também formativa - precisa ser reconduzida ao lugar que lhe compete, na família e na escola.

 

Silvia Amaral de Mello Pinto - Pedagoga - Psicopedagoga  - Coordenadora da Elipse - Clínica Multidisciplinar - Membro Titular e Conselheira da ABPp - Associação Brasileira de Psicopedagogia

 

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