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 Edição de Maio 2008

Trabalho escravo no Brasil ainda é uma realidade

 

A escravidão foi banida no Brasil em 1888 e, ainda hoje, surgem denúncias de que o trabalho escravo persiste em algumas regiões do Brasil. O Nordeste é um tradicional celeiro de mão-de-obra barata e fornece trabalhadores, principalmente, para as grandes usinas de álcool, empresas de reflorestamento, construção civil e empregados domésticos. A maioria desta mão-de-obra, fugindo da seca e da falta de trabalho em suas comunidades de origem, se aventura, ou melhor, sem nenhuma outra opção, acaba migrando em busca da sobrevivência para várias regiões brasileiras, alguns até para o exterior.

     No primeiro momento dessa nova realidade e longe da sua terra natal, esses trabalhadores são obrigados a aceitar qualquer trabalho e, devido à ignorância e ao despreparo, sujeitam-se a condições subumanas para poderem se estabelecer, como dormir amontoados em alojamentos sujos e superlotados, sem as mínimas condições de higiene, segurança e conforto. Alguns conformados se acomodam nessa nova realidade e outros, a minoria dos mais capazes, logo começam a fazer o seu próprio destino, buscando novas oportunidades, as quais acabam aparecendo em função do empenho e da vontade desses poucos.

Esse triste cenário perdura há muito tempo e nada vem sendo feito em termos de planejamento para que ele se modifique. O Nordeste ainda continua nas mãos dos “coronéis do sertão”, hoje “políticos regionais”. Entra ano, sai ano, vem a seca, vem a chuva e nada muda.

     O grande problema é a falta de um programa que privilegie a fixação desses brasileiros em suas regiões de origem e que lhes permita viver em suas comunidades em condições dignas e humanas tirando da terra, ou mesmo do trabalho assalariado, a educação, saúde e segurança que todos necessitam.

    Chega de projetos assistencialistas e eleitoreiros que saem distribuindo esmolas em troca de votos e obediência. Outro grande ponto para minimizar essa vergonhosa situação nacional seria a implantação de um rígido programa de controle de natalidade, através da informação e do fornecimento de meios para a não-concepção — mesmo indo contra a igreja católica que, com seus preconceitos e dogmas ultrapassados ignora a realidade e continua proibindo qualquer forma de controle de natalidade.

 

     Para que o trabalho escravo venha ser revertido, o governo deve tomar, como primeira medida emergencial, a intensificação da fiscalização nas empresas dos setores que empregam esse tipo de mão-de-obra, criando-se rígidas normas regulatórias e protecionistas e oferecendo incentivos para que elas cumpram com as regras estabelecidas. Também é preciso que o governo exija das grandes consumidoras de produtos provenientes desses setores, como a Petrobrás e empresas cimenteiras, que só se utilizem de fornecedores socialmente responsáveis, não só em termos de sustentabilidade, mas com comprometimento social e cumpridores de todas as leis perante a Justiça do Trabalho.

     Já para os empregados da construção civil, a fiscalização deve ser intensificada no quesito segurança, salário e, sobretudo, educação, pois os grandes canteiros de obra deveriam ter também o comprometimento da formação de seus colaboradores, fornecendo a alfabetização e a formação técnica que o segmento exige. Quanto aos empregados domésticos, por estarem mais dispersos na sociedade, campanhas públicas deveriam ser inseridas nos meios de comunicação para esclarecer, além dos seus direitos, os seus deveres, o que poderia em muito minimizar os corriqueiros conflitos que uma convivência tão próxima entre capital e trabalho demanda.

     Se hoje compararmos a escravidão com situações atuais de trabalho em regiões não fiscalizadas pelo Poder Público, veremos que algumas condições escravagistas perduram e, em alguns casos, em condições muito piores às anteriores ao advento da Lei Áurea. O que espero não é um protecionismo para qualquer das partes envolvidas em um contrato de trabalho, e sim, que as exigências mínimas de ética e respeito ao ser humano venham a ser adotadas.

 

Sylvia Romano




O terror trabalha ao lado

 

"Paguei todos os meus pecados. Dia após dia, ouvia que era burra, incompetente, que as minhas matérias eram um lixo. Tudo em voz alta, para a redação inteira ouvir. Fui parar no hospital. Crise aguda de gastrite. Fora a enxaqueca permanente". O depoimento é de Paula*, hoje assessora de imprensa, que durante dois anos se submeteu a humilhações diárias capitaneadas por um editor de um jornal de grande circulação de São Paulo. Um exemplo, dentre muitos, de um tipo de violência comum nas redações: o assédio moral.

    Reféns da vergonha, do medo de perder o emprego e de serem taxados como encrenqueiros, a maioria não denuncia os superiores. Paula, por exemplo, optou pela saída mais corriqueira, pediu demissão. "Concluí que não valia a pena denunciar. Ainda tenho muita carreira pela frente", justifica.

O receio pode ter razões práticas. Mas contribui para velar uma agressão que é tão antiga quanto uma Olivetti Lettera, marcada por uma conduta abusiva do superior que, repetidamente, usa gestos, palavras e atitudes para humilhar um funcionário ou muitos deles. Ou seja, não trata-se apenas de uma mera implicância de chefe com subordinado.

     A área de comunicação é terreno fértil para o assédio. Só perde para saúde e educação. Não é difícil saber o porquê quando se conhece a rotina de um jornalista. Doutor em comunicação, o psicólogo José Roberto Heloani mergulhou nas histórias desses profissionais, para o trabalho "Mudanças no mundo do trabalho e impactos na qualidade de vida do jornalista", e descobriu situações semelhantes em diversas redações.

Luciano Veronezi

Tipos de chefe

     As desavenças no jornalismo são produto de uma lógica competitiva, motivada, muitas vezes, por um conflito de gerações. Ou seja, o mais jovem desqualifica o trabalho do mais velho, que não possui tanto domínio da tecnologia quanto ele. E quem tem mais idade, por sua vez, costuma classificar os chamados focas como irresponsáveis e ignorantes. "O isolamento é a mais comum das humilhações. Um elogio sutil, acompanhado de uma desqualificação profissional, também é uma atitude corriqueira. Cria-se um clima de desconfiança até que os próprios colegas começam a questionar o trabalho dessa vítima, isolando-a", explica o psicólogo.

     Não há, por enquanto, uma avaliação empírica sobre quantos jornalistas sofrem assédio no Brasil. Mas no universo pesquisado por Heloani, 44 pessoas, 19% era alvo de agressões. As conseqüências são graves. Os homens costumam ter problemas cardíacos, gastrintestinais e de disfunção erétil. Já as mulheres sofrem com doenças hormonais, enxaquecas e queda de cabelo. Alcoolismo, uso de drogas e até tentativas de suicídio também ocorrem.

 

Conheça o perfil dos agressores*

 

Profeta
Sua missão é "enxugar" o mais rápido possível a "máquina", demitindo indiscriminadamente os trabalhadores/as. Refere-se às demissões como a "grande realização da sua vida". Humilha com cautela, reservadamente. As testemunhas, quando existem, são seus superiores, mostrando sua habilidade em "esmagar" elegantemente

 

"Tasea" ("Ta se achando")
Confuso e inseguro. Esconde seu desconhecimento com ordens contraditórias: começa projetos novos, para no dia seguinte modificá-los. Exige relatórios diários que não serão utilizados. Não sabe o que fazer com as demandas dos seus superiores. Se algum projeto é elogiado pelos superiores, colhe os louros. Em caso contrário, responsabiliza a "incompetência" dos seus subordinados

Pitt-bull
É o chefe agressivo, violento e perverso em palavras e atos. Demite friamente e humilha por prazer

 

Tigrão
Esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e necessita de público que assista seu ato para sentir-se respeitado e temido por todos

 

Mala-babão
É aquele chefe que bajula o patrão e não larga os subordinados. Persegue e controla cada um com "mão de ferro". É uma espécie de capataz moderno

 

Troglodita
É o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas sem pensar e todos devem obedecer sem reclamar. Sempre está com a razão. Seu tipo é: "eu mando e você obedece"

 

Garganta
É o chefe que não conhece bem o seu trabalho, mas vive contando vantagens e não admite que seu subordinado saiba mais do que ele. Submete-o a situações vexatórias, como por exemplo: colocá-lo para realizar tarefas acima do seu conhecimento ou inferior à sua função

 

Grande irmão
Aproxima-se dos trabalhadores e mostra-se sensível aos problemas particulares de cada um, independente se intra ou extra-muros. Na primeira "oportunidade", utiliza estes mesmos problemas contra o trabalhador, para rebaixá-lo, afastá-lo do grupo, demiti-lo ou exigir produtividade.

 

Angélica Pinheiro

Fonte: assediomoral.org/conteúdo retirado de Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP



As mulheres no mercado de trabalho

 

O último levantamento realizado pelo Cadastro Catho, que conta com 94.923 empresas e 360.501 executivos, apontou uma participação histórica de mulheres nos níveis hierárquicos mais elevados (presidentes e CEOs): 20,56%. É o percentual mais alto registrado nos últimos 11 anos - em 1997, elas representavam apenas 10,39% dos presidentes e CEOs.

 

A tabela abaixo mostra a evolução das mulheres por nível hierárquico nos últimos 11 anos.

 

 

EXECUTIVOS DO SEXO FEMININO (%)

 

Cargo

1996/97

1998/99

1999/00

2000/01

2001/02

Presidente, CEO Ou Equivalente

10.39

12.04

13.02

13.88

15.14

Vice-Presidente

10.82

12.92

11.54

12.55

12.89

Diretor

11.60

16.01

18.67

19.73

19.21

Gerente

15.61

17.32

18.85

20.43

22.16

Supervisor

20.85

22.95

25.24

24.75

29.22

Chefe

24.76

24.52

28.03

29.5

29.50

Encarregado

36.78

36.42

40.40

41.66

41.66

Coordenador

36.95

34.60

39.63

40.65

40.65

 

Cargo 2003/04  2004/05 2005/06 2006/07 2007/2008
Presidente, CEO Ou Equivalente 15.87 16.75 20.21 20.17 20.56
Vice-Presidente

13.51

15.11

15.59

16.13

16.04

Diretor

21.59

21.91

24.39

25.03

25.86

Gerente

24.92

25.64

28.03

30.12

32.03

Supervisor

32.87

37.11

40.42

42.84

44.68

Chefe

32.22

34.84

38.57

39.30

40.54

Encarregado

45.63

48.32

50.93

52.32

53.49

Coordenador

44.65

47.46

49.96

51.51

53.89

 

     Nos cargos gerenciais e de supervisão, as mulheres mantêm uma tendência de crescimento gradativo. Porém, observa-se um crescimento maior da participação feminina nos cargos de chefe, encarregado e coordenador, principalmente em empresas de grande e médio porte.

 

A tabela a seguir mostra a porcentagem de mulheres de acordo com o tamanho da empresa.

 

Tamanho da empresa

Empresa acima de 1.500 funcionários

Empresa de 701 a 1.500 funcionários

Empresa de 201 a 700 funcionários

Empresa de 50 a 200 funcionários

Empresa abaixo de 50 funcionários

Cargo

2007

2008

2007

2008

2007

2008

2007

2008

2007

2008

Presidente

11,06%

11,50%

11,69%

11,83%

13,86%

14,23%

17,28%

17,63%

25,12%

25,05%

Vice-Presidente

9,81%

10,45%

10,55%

9,05%

15,29%

13,77%

16,31%

17,16%

27,47%

26,73%

Diretor

16,84%

18,02%

17,72%

18,42%

19,30%

20,48%

23,13%

23,73%

30,88%

30,74%

Gerente

21,52%

23,45%

20,94%

22,98%

24,37%

26,22%

31,34%

32,26%

42,47%

43,86%

Supervisor

35,22%

37,11%

37,35%

37,39%

40,47%

41,60%

44,51%